O fim de velhos conceitos
Walmor Macarini
O fim do segundo milênio é, sim, um final de tempos, porque, coincidentemente (uma coisa independendo da outra), vamos deixando a Era de Peixes e entrando na Era de Aquários, e isto não é nenhum invento esotérico ou astrológico mas um fenômeno cósmico explicável. Também ocorre um realinhamento do sistema solar em sua órbita — Terra incluída — fechando-se um giro em torno do Zodíaco que só acontece a cada 26 mil anos. Zodíaco também não é uma miragem dos místicos mas uma zona do cosmos, dividida em 12 constelações. Esses fatos implicam em um ajuste também da frequência da mente universal e, por extensão, o fim de velhos conceitos. O recente pronunciamento do papa (tema de nosso artigo da última quinta-feira), dando uma guinada de 360 graus na concepção da Igreja Católica sobre céu e inferno, é um desses sinais.
O fim do milênio será também o do despertar da consciência da humanidade. Essa mudança irá se manifestando de vários formas, como este recente pronunciamento do papa. Poderá ser pela debandada dos fiéis de dentro dos templos, até que se esvaziem e surja uma nova e única igreja. Não uma Igreja no sentido de corporação, de partido religioso, mas simbolizada pelo reencontro pleno do homem com a sua espiritualidade. Será um renascer de novo. Essa compreensão já começa a chegar e vem em avalanche, aclarando as mentes e expandindo a consciência daqueles que não estão com os antolhos do fanatismo.
E então o homem se identificará com a luz de sua essência e se reconhecerá centelha de Deus.
As igrejas de rito bíblico, por nunca haverem ‘‘interpretado retamente’’ certas parábolas contidas nas Escrituras, sempre limitaram o homem à condição de um pequeno ser, porque o mensuraram não pela dimensão de sua essência espiritual mas pela sua estrutura material. Colocaram-lhe uma canga de pecador e que só se purificará pelo sofrimento. E sujeito, pelas suas iniquidades (da carne, não do espírito), a imaginárias iras divinas e a tentações de demônios.
Desde então o homem viveu torturado pela ameaça de arder em chamas, por conta de seus pecados... E assim chegou trôpego ao limiar do terceiro milênio, sem haver encontrado, dentro dos templos, a resposta para os seus questionamentos. As igrejas nunca souberam explicar-lhe sua própria origem e a razão de sua experienciação terrena.
E agora, em momento de revelação, o papa soa as trombetas e proclama que ‘‘o céu não é um lugar entre as nuvens’’, mas um estado de ‘‘plena comunhão com Deus’’; que ‘‘céu e inferno não são lugares físicos’’ mas ‘‘estados de alma’’; que imagens (citadas no Apocalipse) como as do ‘‘fogo ardente do inferno’’ devem ser ‘‘interpretadas retamente’’, ficando aí subtendido que a Bíblia não deve ser literalmente interpretada da forma que está escrita.
Em artigo que escrevi meses atrás, eu disse que ‘‘ler, reler e decorar o texto bíblico, como fazem os frequentadores dos templos, por si só não basta, porque é preciso entendê-lo e compreender o sentido, no mais das vezes figurado. Porque é hermético e simbólico em muitas partes. No Novo Testamento, pelo menos três dos evangelistas escreveram por ouvir dizer, de boca em boca, tendo como referência o que disseram os discípulos de Jesus, nem havendo certeza (à exceção de João) da veracidade do conteúdo desses escritos, tanto que os pósteros adicionaram ‘‘segundo’’ Mateus, ‘‘segundo’’ Marcos, ‘‘segundo’’ Lucas... Ademais, do Velho e do Novo, muitas partes foram suprimidas, por conveniência da Igreja dominante, outras partes foram reescritas, adaptações foram feitas e a linguagem modificada. O que não convinha dizer, o papa Damaso recomendou ao teólogo Jerônimo que suprimisse, por isso que não se encontra uma só linha, na Bíblia, sobre a vida de Jesus dos 13 aos 30 anos. É que nesse tempo ele foi aprender em outras igrejas... Basta observar também que todo o texto, do Velho e do Novo Testamento, tem um único estilo, e muito bem elaborado — parecendo reeditado por um só autor — quando se sabe que eles resumem a condensação de quase 80 livros, que, cada qual a seu tempo, foram escritos com diferenças de séculos entre um e outro, alguns até milênios. Já os apócrifos (todos suprimidos) têm uma linguagem direta, rudimentar, sem nenhuma elaboração estilística, parecendo tal qual foram escritos.
Não se pode negar a sabedoria que o Livro encerra, mas há aí também muita fantasia, muito simbolismo.
O que está nos Testamentos muitos sabem; o que não sabem é o que não está neles... Portanto, para entender o Velho e o Novo há que ler também o Novíssimo, este ainda não codificado mas pulverizado em toda parte e encontrável por aqueles que têm o faro e a impulsão de buscar. São as novas boas novas.
Doravante, os fiéis começarão a questionar mais suas igrejas, assim como os cidadãos hoje questionam os governos. As que se adiantarem, como ocorreu agora com o pronunciamento que fez o papa, manterão aglutinados os seus seguidores. As que persistirem no obscurantismo, estas perecerão. Temos assistido à dispersão e ao desvirtuamento das igrejas e a muitos fiéis abandonando os templos e buscando o auto-aprendizado, pelas vozes de seu próprio santuário interior.
Já nas primeiras décadas do terceiro milênio começaremos a assistir à progressiva extinção das igrejas como hoje as conhecemos, e, fora delas, as pessoas libertas de jugos e livres para, por si sós, pensarem e então compreenderem. Haverá então uma só Igreja e um só pastor.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup