O fim de uma época
A farra dos economistas com dinheiro do trabalhador e dos funcionários encontrou um limite. Desde o governo Sarney, os economistas, quando em postos de comando na administração, comportam-se como donos absolutos da verdade. Fazem e desfazem. Nenhum deles foi eleito, passou pelo crivo popular ou, ao menos, colocou em debate suas próprias teses. No entanto, implantaram planos estapafúrdios, meteram a mão no bolso do cidadão e, de quebra, em momento de rara insensatez, confiscaram toda a poupança nacional.
Os erros de governo costumam custar muito caro. A frase é do presidente Fernando Henrique. Na última semana, os tribunais superiores recolocaram a verdade em dois assuntos escandalosos. Na adoção do Plano Verão, promovido pelo professor Maílson da Nóbrega, e do Collor I, de autoria da inesquecível Zélia Cardoso de Mello, os depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) foram garfados em 68,9%. Assim decidiu o Superior Tribunal de Justiça (STJ). A curiosa argumentação oficial diz que o País não aguenta pagar a conta. Mas, os trabalhadores, a quem pertence o dinheiro, pagaram. Sem alarde nem revolução armada.
A segunda decisão ocorreu no Supremo Tribunal Federal (STF). Esta já diz respeito ao plano de estabilização desenvolvido pela atual equipe econômica. Os ministros decidiram que no momento da conversão do cruzeiro real (lembram-se desta moeda?) para Unidade Real de Valor (URV) ocorreu o erro. Os cálculos foram realizados como se todos os servidores públicos recebessem seus salários no dia 30. Os do Judiciário e do Legislativo recebem no dia 20. A diferença se refere a estes dez dias que os economistas pretendiam deixar para lá.
Os economistas realizaram uma obra razoável com a estabilidade econômica, cujo ônus recaiu sobre o trabalhador, aquele que conseguiu se manter empregado. O nível de desemprego aumentou muito. A desnacionalização se alastrou, na medida em que as taxas de juros internas alcançavam patamares espantosamente elevados. Foi a fórmula encontrada para acabar com a inflação. Os tribunais estão corrigindo os equívocos dos técnicos. Daqui para a frente, talvez, os planos venham a ser imaginados e planejados com maior cautela.
Uma medida da diferença de políticas também apareceu na última semana. O Banestado, o banco estatal do Paraná, foi privatizado. Adquirido pelo Itaú. Antes, no entanto, o governo federal injetou mais de R$ 5 bilhões para sanear a instituição. Ou seja, limpou o que estava errado ou no prejuízo. E depois a repassou para o banco privado por pouco mais de R$ 1 bilhão.
Para ajudar o sistema financeiro sempre há dinheiro. Para recolocar as contas do FGTS em ordem ocorre uma gritaria. E os salários devidos aos funcionários provocam choro e raiva. Uma boa medida, a ser adotada doravante, é ligar o nome do autor do plano às suas consequências. Quem criar o problema, que o resolva.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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