EditorialO fim de um sonho
A comemoração dos 90 anos da imigração japonesa, no dia 20, é motivo para reforçar o reconhecimento da imensa contribuição dos nipônicos ao desenvolvimento do Brasil. Em 1998, a data coincide com o surgimento de uma crise real que atinge milhares de brasileiros. O problema afeta as pessoas que começaram a fazer o caminho inverso, buscando no Japão a esperança que, aparentemente, está fenecendo entre nós.
A grande crise recessiva do Brasil acabou provocando uma onda inversa à que começou há 90 anos. A partir de 1908, os japoneses começaram a chegar, trazendo na bagagem não só a esperança de melhorar a vida mas, também, a coragem e a disposição para enfrentar os maiores desafios. Queriam obter, na nova terra, condições melhores que as de sua pátria de origem. É incomensurável o benefício trazido pelos imigrantes japoneses ao Brasil. Sua presença e participação foi de valor inestimável. Chegaram, lutaram, trabalharam com determinação, conseguiram, na maior parte dos casos, sucesso. Como resultado natural, acabaram se tornando verdadeiros brasileiros. Seus descendentes são membros efetivos da múltipla raça brasileira, participantes em todos os setores da vida nacional.
Com a recessão brasileira, que se agravou nos anos 80, e com o continuado crescimento da economia japonesa, começou o que se pode chamar de ‘‘retorno’’. Não a volta dos imigrantes japoneses, mas de seus descendentes. No Brasil, faltavam oportunidades, as dificuldades eram cada vez maiores, a crise reduzia a esperança. No exterior, surgiam novas oportunidades. Formou-se, então, um quadro diferente. O Brasil, terra de oportunidades, passava a ser a terra sem futuro, e milhares iam embora. Muitos preferiram tentar a sorte nos vizinhos mais ricos e próximos, EUA e Canadá, principalmente. Mas para os descendentes de japoneses, o Japão era uma opção talvez até mais confiável. De algum modo, poderia ser mesmo o retorno às origens, o que aliviaria, pelo menos, o trauma da situação de ser um estrangeiro total em qualquer outro país.
O sonho se mostrou viável ao longo dos últimos anos. Milhares foram, alguns resolveram - como os imigrantes das primeiras levas - ficar em definitivo. Boa parte, porém, preferiu fazer o que era, na época da imigração européia, o sonho de muitos: viajar, trabalhar, enriquecer e voltar. Até por isso, o dinheiro enviado por muitos dos brasileiros que foram para o Japão, nesse período, representa um capital respeitável: segundo recentes informações, os 200 mil de dekasseguis trazem ao Brasil perto de 4 bilhões de dólares ao ano, quase a metade do valor da safra agrícola do Paraná, em 97!
Entretanto, o sonho também começa a se transformar em pesadelo. A crise econômica asiática atingiu o Japão. O desemprego aumentou lá e, como resultado até natural, os estrangeiros são as primeiras vítimas. Hoje, o fluxo de pessoas buscando o Japão diminuiu. E a oferta de trabalho para os dekasseguis é bem menor. Surge um sério problema - ainda maior porque o Brasil também não resolveu seus problemas internos. Os que ainda tentam ir embora, apesar da crise japonesa, refletem uma realidade: aqui a situação ainda está pior. Quanto ao retorno dos que já estão lá, ainda que sofrendo dificuldades, parece algo ilusório. Este é, porém, o desafio ao se celebrar os 90 anos de imigração japonesa. O Brasil precisa enfrentá-lo, rapidamente, não só para oferecer condições aos brasileiros que buscam seu lugar aqui, mas também aos que se foram. Já é hora de o Brasil voltar a ser o sonho e a realidade de todos os brasileiros.

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