O fim de Fujimori
O anúncio de novas eleições, feito por Alberto Fujimori, foi o auge de uma série de minicrises sofridas por seu governo, mas, ainda não deixa claro o panorama político do Peru, e muito menos de sua instável democracia. No momento, parece claro que os excessos de Fujimori esgotaram a paciência de Washington, mas resta saber se os Estados Unidos (ou a OEA, que neste caso é o mesmo) estão (ou podem estar) decididos a realizar uma limpeza profunda.
Com as energias norte-americanas voltadas ao Plano Colômbia, o resto do teatro andino poderia ficar à deriva de sua dinâmica interna. Em plena transição de Washington, sem um claro sinal de qual é, ou será, a política norte-americana para a região latino-americana em geral, não seria muito confortável para o regime peruano ficar fora da tela do radar norte-americano.
Em regra geral, quando Washington decide apoiar a distância a evolução de um assunto interno, o faz com gestos simbólicos, mas, ao mesmo tempo, significativos. Poderia ser aceitável como um mínimo de protocolo e deferência ao chefe da oposição de qualquer regime democrático, mas foi mais que um gesto: o ex-candidato à Presidência do Peru, Alejandro Toledo, sentou-se à mesa presidencial no banquete central da Conferência das Américas, um foro organizado pelo jornal Miami Herald, para ouvir o presidente Andrés Pastrana, da Colômbia, defender seu Plano.
Ao lado do opositor peruano estavam, entre outros, um general dos marines, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, e o subsecretário de Estado, Peter Romero. Este, em entrevista à imprensa, expressou a extrema preocupação do governo norte-americano diante de um escândalo televisivo. O contexto desta referência era que, insolitamente, uma organização sob o controle da ex-mulher de Fujimori, Susana Higuchi, havia conseguido filmar o suborno de Alberto Kouri, até agora integrante da oposição por um maço de dólares, entregues por Vladimiro Montesinos, chefe do Serviço de Inteligência de Fujimori.
A perda do favor de Washington historicamente começa com o esgotamento da paciência do império. Há alguns dias, a secretária de Estado, Madeleine Albright, havia sondado Lima, durante sua viagem à América do Sul, para conseguir o apoio regional para as políticas de Washington.
Fujimori tinha razões para se mostrar nervoso. Não foi casual a instrução ao Poder Judiciário para que se encarregasse do processo da norte-americana Lori Berenson, até agora em custódia militar, acusada de inspirar a tomada terrorista do Congresso peruano. Não é casualidade que o fizesse como epílogo do escândalo gerado pela descoberta do desvio de uma partida de armas jordanianas para o cenário controvertido da Colômbia. Com esta medida de normalidade jurídica, Fujimori tentava tirar dos ombros parte da pressão internacional. Era inútil.
A cotação política de Alejandro Toledo subira e ele não perdia um minuto em sua implacável campanha de relações públicas para atrair a atenção mundial, como trampolim para uma segunda tentativa definitiva de obter a Presidência. O líder do Peru Possível, que considera ter vencido as eleições de maio passado, oficialmente ganhas por Fujimori, tinha (até o anúncio feito por Fujimori) um plano com pontos precisos. Pretendia anunciá-los em uma série de foros, nos dois continentes. Era inútil.
Em lugar de ir a Washington, França, Itália, Jordânia e Israel, Toledo regressa a Lima. Antes do anúncio dramático de Fujimori, pretendia exigir sua demissão e a destituição de Montesinos. Depois, iria requerer a nomeação de um governo provisório. Não se descarta que Fujimori decida, ou seja forçado, a reduzir o mandato que lhe resta. Este governo provisório deveria ser presidido por uma personalidade aceitável pela maioria dos peruanos e sem ambições de permanecer no cargo, o que elimina o próprio Toledo.
Estas eleições (agora, as mesmas anunciadas pelo próprio Fujimori) deveriam acontecer segundo as exigências de Toledo, com uma supervisão internacional impecável. Falta saber se desta vez estes olhos e ouvidos terão plena liberdade. Realista dentro de seu ingênuo idealismo, Toledo declara que o problema do Peru não pode ser resolvido pelos Estados Unidos ou qualquer potência externa, mas a globalização determina que um problema interno seja um problema mundial. Continuar fazendo-se de surdo diante dos abusos peruanos era o mesmo que apoiar a consolidação do autoritarismo, tanto da variante caudilhista (como na Venezuela) quanto da neoliberal.
Com o dramático anúncio de Fujimori, caiu por terra a opção é melhor o mal conhecido do que o bem ainda desconhecido. O problema é quem controlará o Peru nos próximos meses. Dependendo de como as coisas acontecerem na Colômbia, será preciso esperar a posse do novo presidente dos Estados Unidos. Mas há muitos meses nesse meio tempo e não se deve descartar novos acontecimentos espetaculares.
- JOAQUÍN ROY é catedrático de Relações Internacionais e Sênior Research Associate do Centro Norte-Sul da Universidade de Miami/EUA (IPS)





