Há quem diga que essa eleição não tem graça nenhuma. Não tem emoção. Não tem disputa. E pode ser até verdade. Mas essa gente não está vendo o fato por outro prisma. Essa eleição é histórica. O resultado é o que menos importa. Ela significa, na verdade, o fim da inocência de uma época em que nós vivemos mais ou menos felizes. A eleição para a presidência da República marcará também o triunfo da mediocridade sobre a tentativa da construção de uma sociedade mais generosa. E a oposição está incluída nisso. Não dá para fingir que não é com ela.
Alguns pensadores adotam o sistema pendular para explicar as marchas e contramarchas da História. Se essa referência valer, a eleição deve marcar a interrupção do movimento positivo - se é que se pode dizer assim - antes que ele tenha alcançado a sua plenitude. E mais uma vez voltaremos a ser um país cheio de potencialidades, mas que nunca cumpre o seu destino.
Para uma eleição sem entusiasmo até que está de bom tamanho. Quem sobreviver, verá. Serão doses cavalares de realidade. E, a não ser para alguns eleitos, a realidade não gosta de ver ninguém bem. Principalmente os relapsos que não sabem fazer a lição de casa, e não assimilam os ensinamentos daqueles que mandam e, por isso, têm a verdade.
Jeffrey Sachs, coordenador da pesquisa de competitividade global do Fórum Econômico Mundial, já passou um pito, através de um artigo, nessa garotada que insiste em não seguir as regras de bom comportamento ditadas pelos Senhores da Guerra. Ele diz que o Brasil tem boa parte da culpa pela confusão em que se meteu.
‘‘O País vem vivendo perigosamente, apostando que vai sobreviver à base de uma sequência de acasos felizes. Essa boa sorte vem se esgotando nos últimos meses, ameaçando mergulhar o Brasil numa crise econômica cada vez mais profunda’’, diz o economista que foi o ‘‘guru’’ das reformas na Rússia ‘‘descomunizada’’ e hoje já não é muito festejado pelo pessoal desempregado ou com salários atrasados há meses que fazem ponto na Praça Vermelha.
De qualquer forma, é sempre bom saber como esse pessoal que está na moda anda pensando. Segundo Jeffrey Sachs, o Brasil cometeu três erros básicos: não controlou os gastos orçamentários; atrelou o real ao dólar de forma perigosa demais: e priorizou o crescimento do consumo interno em vez do crescimento das importações.
Esses erros todo mundo mais ou menos conhece. O que Sachs preconiza, entretanto, é que as correções devem ser feitas o mais rápido possível. Antes que se perca grande parte das reservas de divisas. ‘‘Se há uma lição a ser tirada do México, Tailândia e Rússia, é que nada é mais doloroso do que uma desvalorização da moeda depois de esgotadas as reservas, já que uma economia sem elas é exposta às formas mais virulentas de pânico financeiro’’, afirma o sabe-tudo.
Mas tudo isso não tem nada a ver conosco. Nós temos reservas financeiras inesgotáveis. E depois a crise é mundial. Nós estamos andando junto com todo o mundo. Valha-nos Deus.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em Brasília

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