O fim da era Menem
Domingo, os argentinos vão às urnas para escolher o sucessor de Carlos Menem. Seguramente, quem mais sofre com este pleito é precisamente o presidente, que conseguiu mudar a Constituição para disputar um segundo mandato e também fez esforço para lograr ser candidato de novo. Este é, sem dúvida, o problema daqueles que, em dado momento, perdem a percepção da realidade e começam a se considerar imprescindíveis para o país. Para tornar ainda mais desconfortável a situação, as pesquisas indicam que o eleitorado argentino está propenso a escolher o candidato da oposição, Fernando De la Rúa, que está, conforme pesquisa desta semana, 14 pontos percentuais à frente do peronista Eduardo Duhalde. Segundo o levantamento, que estima sua margem de erro em mais ou menos 3,4%, De la Rúa pode vencer com 51% dos votos, contra 35% para Duhalde e 10% para o ex-ministro Domingo Cavallo. Dos entrevistados, 41% apontaram o desemprego como o mais importante problema do país.
Sem poder concorrer, Menem observa com atenção o desempenho do candidato peronista. Afinal, a derrota do situacionismo, ainda que não represente uma perda pessoal para o presidente, sempre constitui uma indicação de insatisfação. O que se pode perceber ante esta tendência é que depois de oito anos de Menem, os argentinos querem mudar. Na luta para tentar evitar isto, Menem começa a fazer antecipações, anunciando que a aliança de oposição pretende desvalorizar o peso se ganhar as eleições. Desde 1991, aplica-se na Argentina a Lei da Convertibilidade, segundo a qual um peso equivale a um dólar. Este é um dos temas mais candentes da campanha, uma preocupação bastante acentuada de Menem, que fez da equiparação dólar-peso uma base para superar os sérios problemas que enfrentou no seu primeiro mandato.
Menem, vale lembrar, teve de se haver com sérias dificuldades logo ao assumir. Não teve a sorte do seu vizinho Fernando Henrique Cardoso, que assumiu depois do sucesso inicial de um interessante plano de estabilização. Para Menem, a situação foi mais dramática: a Argentina estava em um estado de quase abandono (lembrava um pouco o Brasil dos últimos meses de José Sarney). E Carlos Menem conseguiu produzir soluções para resolver os maiores desafios. Perdeu-se, porém, sem dúvida, no momento em que – seguindo, conscientemente ou não, a linha de outros governantes do tipo messiânico –, considerou que só ele poderia conduzir a Argentina. Fez o possível e o impossível para conseguir o direito a um segundo mandato e só não disputa um terceiro porque esta pretensão continuísta encontrou fortes barreiras.
E não há dúvida que as dificuldades que o candidato de seu partido enfrenta decorrem precisamente desta postura quase imperial. Seguramente, Menem deixa a Argentina em situação melhor do que a que encontrou. Em tese, deveria eleger seu sucessor. Como, porém, há quatro anos foi candidato de si mesmo, não tem agora a força para oferecer um sucessor. Talvez nem tenha a vontade. É um dos males do continuísmo, do messianismo, da política convertida em demagogia. Menem acabou sendo vítima de sua própria onipotência. Garante que volta ao poder, na Argentina, dentro de quatro anos, para suceder a quem quer que ganhe as eleições agora. Pode acontecer, mas em um tempo como o atual, de tantas mudanças e de tamanha instabilidade, é difícil apostar nisto. Pior é que até esta pretensão reflete bem a idéia de alguém que se autoconsiderou o único argentino capaz de dirigir os destinos de seu país. Uma postura perigosa. E, eventualmente, uma lição para outros que tentam seguir as pegadas do quase ex-presidente argentino.

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