O fim da Era Malan - Gaudêncio Torquato
O fim da Era Malan
Gaudêncio TorquatoO Brasil real, perplexo, confuso, cheio de furor, amargurado, sem dinheiro, descrente, habitado por milhões de desempregados, está dando um adeus ao Brasil do Real, esse território artificial, cheio de empáfia e arrogância, frieza e distância, comandado por uma tecnodemocracia, que nada mais é que um sistema onde a palavra de ordem é dada por economistas frios, burocratas modelados pelo frio aço monetarista. O Brasil do Real é aquele que já se foi, o do quilo de frango a R$ 1, e Malan é seu profeta.
O Brasil real é o das multidões silenciosas, castigadas pelo desemprego, que não dá sinais de recuo; é o das classes médias, empobrecidas, perplexas e amedrontadas com a violência que dispara nos grandes e médios centros urbanos; é o do governo que aumenta a gasolina pela quinta vez este ano; é o dos escândalos sucessivos envolvendo políticos; é o dos Estados e municípios sem recursos para desenvolver programas fundamentais; é o do aparelhamento sucateado nos hospitais; é o do sistema produtivo nacional, sucateado por conta da ausência de eixos desenvolvimentistas; é o da agricultura que, há anos, persegue a meta de produzir 80 milhões de toneladas de grãos, uma afronta para um país que tem condições de produzir 500 milhões anuais.
O Brasil de baixo não é percebido pelo Brasil de cima. O sociólogo-presidente ainda é capaz de realizar uma inteligente leitura do corpo social, ao puxar os conceitos de uma nova classe média emergente, mas é uma negação na engenharia de medição do pulso social, na arte de ver coisas além da estabilidade da moeda, na técnica de gerir programas voltados para oxigenar os pulmões e irrigar o coração do povo. Assemelha-se a Tales de Mileto, o filósofo flagrado, certo momento, completamente absorto na contemplação das estrelas. Um dia, por não ter dado devida atenção ao terreno em que pisava, caiu descuidado dentro de um grande fosso. Uma velhinha que por ali andava, assistindo a desastrada queda, fez a observação: Como queres, ó sábio, aprender o que se passa no céu se nem ao menos és capaz de saber o que ocorre a teus pés?
Fernando Henrique está preso em seu próprio reflexo. Em sentido lato, trata-se de um monarca, pois se comporta como tal, conduzindo-se de maneira olímpica no meio do furacão, fazendo de seu estilo tíbio e fugidio uma estética de ação. Parece se comprazer com o endeusamento da imagem do intelectual, homem culto e preparado. Fascinado por seu próprio brilho, encantado pela performance monetarista de seu profeta Malan, embalado por um manto litúrgico, o presidente esqueceu de governar. Não ouve o rumor das massas insatisfeitas. Relativiza o início da grande fuga que está sendo planejada pelos partidos da base aliada, a partir do PMDB e PFL. Como não tem mais projeto político pessoal, deixa que os tucanos tomem conta da administração, com José Serra na frente do tabuleiro. Serra luta desesperadamente para se viabilizar como candidato do PSDB e está fechando o cerco a toda a administração federal. Ele aposta que Mário Covas, mesmo tendo vencido a doença, não se sentirá com forças para enfrentar o mutirão de uma campanha presidencial. E Tasso Jereissatti, isolado no Ceará, parece triste e desmotivado.
Ao PSDB fica a tarefa de abrir caminhos na estrada, pois ao partido não resta outra alternativa. Perdendo, se desmanchará no dia seguinte, pois, com exceção do Estado de São Paulo, não tem fios capilares que o levem ao fundo do País. O pior é que o presidente não dá mostras de querer resgatar a imagem de prestígio. Contenta-se com a onda negativa. Fecha os olhos para os buracos sociais. Só tem olhos para a equipe econômica e o FMI. Sob certo prisma, e fazendo mesmo um jogo de palavras, esse olhar cego determina o FIM da Era Malan.
O ministro pode até ficar no cargo, mas seu ciclo de vida chega ao fim. Trata-se de uma era que permitiu, no primeiro semestre deste ano, o lucro de um R$ 1 bilhão, líquidos, a um só banco, no momento em que os índices mostram que mais da metade da população brasileira recebe menos que o salário mínimo. Tal quantia é suficiente para dar mais de dois salários mínimos (R$ 250) às 4 milhões de famílias indigentes do País - mais de 20 milhões de pessoas. Esse FMI é mesmo o FIM.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político-eleitoral
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