A eleição de 2026 está oferecendo ao eleitor um fenômeno quase científico. Quanto mais alguns candidatos prometem, menos aparece a pergunta fundamental. Quem paga a conta? Os programas registrados no TSE são documentos oficiais, mas oficial não é sinônimo de viável. Há promessa ali que parece ter sido escrita depois de uma feijoada, com o orçamento nacional servindo de guardanapo.

A campeã da categoria surreal é a estatização do Uber. A ideia de transformar aplicativo privado em patrimônio estatal vem acompanhada de garantia de emprego público e combate à uberização. É o velho Estado brasileiro, conhecido pela fila, pelo carimbo e pelo sistema fora do ar, sendo convidado a administrar transporte por aplicativo. O cidadão pediria um carro e talvez recebesse uma repartição.

Há também quem queira dobrar imediatamente o salário mínimo. Samara Martins e Hertz Dias defendem aumento de 100%, enquanto Rui Costa Pimenta chega a defender um mínimo de R$ 7.500. A intenção social pode ser legítima, mas economia não funciona na base do desejo. Se salário dobra sem produtividade, financiamento e capacidade empresarial para absorver o choque, a conta pode voltar pela inflação e pelo desemprego. O trabalhador ganha no contracheque e perde no supermercado. É o famoso aumento com desconto embutido.

Rui Pimenta também promete cortar pela metade, imediatamente, o preço dos combustíveis, além de cancelar privatizações. A gasolina cairia 50% por decreto político, aparentemente como quem baixa o preço da cerveja no boteco. Só que petróleo tem mercado internacional, combustível tem tributo, logística, distribuição e margem. A União não controla tudo. Fazer promessa sem explicar a conta é fácil. Difícil é abastecer sem quebrar a Petrobras ou o Tesouro.

Na segurança, acabar com as polícias militares e criar estruturas populares de segurança é outra aposta de alto risco. Trocar uma polícia problemática por uma espécie de condomínio armado não parece evolução institucional.

E ainda temos a extinção do Senado, o monopólio estatal das telecomunicações e a revogação de privatizações. O catálogo é extenso. Falta apenas anunciar que a inflação será proibida por lei e que o dinheiro brotará no caixa eletrônico.

O problema não é ser de esquerda ou de direita. É vender fantasia como plano de governo. Presidente governa com orçamento, Congresso, Constituição, competência e responsabilidade.

Em 2026, antes de perguntar quem promete mais, o eleitor deveria perguntar quem consegue entregar sem transformar o país num laboratório. Porque promessa eleitoral aceita tudo. A conta, não.

Gregório José, jornalista

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