O feitiço que mata o feiticeiro - Ricardo Prochet
Anos atrás, ainda estudante, iniciei minha atuação profissional como estagiário de uma grande multinacional americana, onde fiquei por dez anos, chegando a ser um de seus principais executivos. Durante esse período, vivenciei inúmeras crises no País, porém, sempre vendo a empresa atingir as metas traçadas pelos escritórios maiores, independente dos óbices que estavam constantemente a ameaçar o sucesso das trajetórias planejadas.
Estariam os segredos dessas empresas em atravessar incólumes os dissabores de toda espécie existentes nos países em que atuam, guardados a sete chaves, em glorioso e protegido segredo, ou podem nossas organizações acessá-los na tentativa de adaptar o que encontrarmos de melhor, criando assim, uma fórmula para que nossas empresas atinjam semelhantes níveis de produtividade, rentabilidade e crescimento, tão necessários nos dias de hoje.
Recentemente me senti envolvido com lembranças sobre o desmedido sucesso das empresas multinacionais e acabei concluindo que elas seguem uma metodologia simples e que os empresários brasileiros ainda insistem em ignorar. Essa receita sempre foi uma mistura de treinamento, seguido da oportunidade de desempenho e forte estímulo a criatividade.
Vale lembrar que o treinamento gera a oportunidade, e essa leva a inovação. A inovação não pressupõe necessariamente uma lógica sequencial, determinística, no processo de produção de idéias. Assim, em primeiro lugar, o desenvolvimento de idéias exige estímulos das empresas à criatividade individual. É necessário despertar no indivíduo o espírito crítico e oferecer a oportunidade de descobrir e conhecer novas alternativas, novas possibilidades. Os estímulos são indispensáveis porque as organizações normalmente levam seus membros mais à conformidade e proteção das condições existentes do que à busca da novidade.
Em segundo lugar, se a geração de idéias novas é essencialmente uma questão individual, a aceitação das idéias é um processo coletivo. Por isso é que se considera a inovação processo organizacional, onde idéias individuais, únicas, precisam ser coletivizadas e institucionalizadas.
Por fim, a implantação de idéias novas corresponde a alteração nas condições existentes; exigindo mobilização de todos os recursos organizacionais no sentido de criar meios favoráveis, superar resistências e, por fim, transformar a empresa.
Como então preservar nossas empresas, que passam por invulgar fase de dificuldades? Elas podem perfeitamente salvar-se, na medida em que possam contar com elevada dose de eficácia empresarial, muito embora seja forçoso reconhecer que isso nem sempre é fácil. Essa eficácia somente será alcançada quando os detentores do capital venham a se compenetrar de que a estrutura de suas empresas precisa deixar de ser monárquica, com administradores improvisados, destreinados, escolhidos por critérios de acomodação de situações familiares, cujos únicos atributos são a circunstância de estarem ligados ao capital por laços sanguíneos ou afetivos.
Dessa maneira, o que se verifica é um incontável número de empresas administradas de maneira amadorística, e por isso mesmo, impotentes diante do presente quadro de dificuldades e do que ainda está por vir. Parece igualmente importante o registro de que tais estruturas praticamente impedem a emergência de verdadeiros e promissores talentos empresariais, em lamentável desperdício de potencialidades humanas, com consequências danosas para as empresas, para a economia e para o País.
A única forma da empresa brasileira evoluir diante da concorrência mundial, que com a globalização nos coloca, enquanto lemos esse jornal, provavelmente sentados em cadeiras importadas da Alemanha, em frente a mesas fabricadas na Dinamarca, com computadores feitos em Taiwan, ou quem sabe, um Macintosh projetado nos Estados Unidos e construído na Irlanda, saboreando as sequinhas e crocantes batatas fritas americanas, em situação de risco de comprometermos a sobrevivência da indústria nacional, construída a duras penas de nossos pais e avós, será através da mesma receita deles: o treinamento, a oportunidade e a criatividade.
Eis aí a receita responsável, em grande parte, pelo sucesso das empresas multinacionais, que muitos sabem criticar, mas que poucos sabem copiar naquilo que elas tem de bom e que se utilizada com sabedoria pelo empresário brasileiro, poderá constituir-se como um autentico feitiço que mata o feiticeiro.
- RICARDO PROCHET é empresário, professor universitário e consultor de empresas em Londrina
e-mail: [email protected] site: http://sites.netscape.net/professorprochet





