A compra de votos de cinco deputados do Acre a favor da emenda da reeleição, denunciada por gravações obtidas pela ‘‘Folha de São Paulo’’, e o envolvimento dos nomes dos governadores Orleir Cameli (AC) e Amazonino Mendes (AM) e do ministro Sérgio Motta, das Comunicações, são o início de um fogo que tende a se alastrar pela floresta de prestígio e credibilidade, dentro da qual se abriga o presidente Fernando Henrique. Sejam quais forem os resultados das apurações, a figura presidencial sairá chamuscada, na medida em que é o principal beneficiário do jogo político traçado pelas cartas da reeleição. A denúncia, na forma de gravação de conversas comprometedoras, tem forte efeito sobre a opinião pública, disparando um processo de contrariedade que funcionará como fator de pressão sobre o Congresso Nacional.
As consequências poderão ter reflexos sobre a desincompatibilização dos candidatos no pleito de 98. Ou seja, o escândalo estreitará os caminhos daqueles que pretendem disputar a reeleição sem sair dos atuais cargos. Cerca de 30 senadores são candidatos e contarão, agora, com novos argumentos para arguir sobre a possibilidade de cooptação por meios ilegítimos, caso os atuais governadores tenham condições de usar a caneta até o dia da eleição. A mobilização pelo afastamento dos candidatos a cargos executivos, três ou seis meses antes do pleito, incluindo o presidente da República, se adensará, na esteira dos detalhes sobre as técnicas de envolvimento usadas pela máquina governista. A simples legislação eleitoral com dispositivos para conter os abusos das administrações não será suficiente.
A cooptação política no país, é sabido, se faz com a moeda das recompensas. Mas a maior parte das trocas ocorre no nível dos pleitos regionais e estaduais, quando parlamentares apresentam a fatura, geralmente na forma de reivindicações sobre obras. Afinal de contas, os empreendimentos gerarão riquezas e progresso e certamente serão contabilizados eleitoralmente. Mas quando se junta a fome com a vontade de comer, tudo é possível. Quer dizer, quando se junta um deputado estroina, simplório e oportunista, com pessoas falastronas, que se imaginam ‘fazedores de reis’, fabrica-se a receita de um farto menu aético.
A indentidade dos participantes na estratégia de corrupção é um dado importante para se avaliar a veracidade das denúncias. Na compra de votos no Acre, a ficha de alguns envolvidos contém alta dose de polêmica. O governador Orleir Cameli já esteve envolvido em casos pouco explicados, como o da apreensão pela Receita Federal, em agosto de 95, de um avião de propriedade de sua família, com uma carga contrabandeada. Ele tem quatro CPFs diferentes e dois números de carteira de identidade. O governador Amazonino Mendes é um leão poderoso no Norte, com muita influência sobre a bancada amazônica. Construiu um arquipélago de mando e poder como poucos fizeram no país. O ministro Serjão Motta, com um estilo desbocado, direto e agressivo, é uma fonte de tufões e terremotos. Esse tal de Ronivon - com seu linguajar capenga e vulgar - parece completamente aparvalhado. É um tipo que confunde mandato com bodega.
Dentro desse molde, a bomba estava prontinha para ser explodida. Restava ver quem poderia fazer isso. Ora, nos Estados há sempre os mal atendidos, os ressentidos, adversários e oportunistas, uma cobra à espera do momento certo para dar o bote. Nas fitas gravadas, observa-se que um Senhor X induziu a conversa, forçando muitas repetições. Discutir se a gravação, feita sem autorização judicial, é ou não prova legal, não tem a menor importância. A bomba foi detonada. A TV e o rádio despacharam os estilhaços para os cidadãos mais distantes. Ao final do processo, caso não se prove nada, os implicados podem até se safar do processo. Mas os deputados se verão, mais uma vez, submetidos aos apupos da sociedade. E o presidente FH, que, até o momento, estava incólume, foi jogado na rede. Se as coisas se confirmarem, não há como deixar de se concluir que o feitiço virou contra o feiticeiro.

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