O fator novo na sucessão de FHC
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sexta-feira, 28 de setembro de 2001
Gaudêncio Torquato 
Em política, a aposta na possibilidade dos 50% é a mais indicada. Quem disser, hoje, que Lula tem 70% ou 80% de chances de se eleger presidente da República, pode cair do cavalo. A mesma queda pode fraturar as costelas de quem aposta na vitória de um candidato situacionista, seja ele quem for. A mais de um ano das eleições, apontar vitória para um ou outro é mera especulação. O que se pode desenvolver, a essa altura, é um exercício sobre os vetores de força que balizarão partidos, grupos e candidaturas. Nesse sentido, tentar explicar os movimentos cíclicos da atualidade parece interessante. Como traçar o significado do único fato novo do momento, o crescimento da candidatura de Roseana Sarney à Presidência da República.
A política e os políticos passam por um estágio de acentuado desgaste, cujas causas extravasam os limites da podridão que, escancarada pelos meios de comunicação, provoca nos cidadãos sentimentos de repulsa e indignação. O estado social da Nação está tomado de grandes carências. Os serviços públicos deficientes e insuficientes provocam ondas de angústia. A insegurança se generaliza. E os homens públicos, pertençam a qualquer esfera das administrações (federal, estadual ou municipal), são identificados como responsáveis, em maior ou menor escala, pela degradação da infra-estrutura urbana das cidades.
O processo de contaminação da vida pública preserva, porém, alguns perfis. As mulheres, por exemplo, a partir do papel exercido no lar, são mais identificadas com o controle de contas, responsabilidade com a educação dos filhos, respeito e moralidade. Os valores femininos estão em alta. E quando esses valores são associados ao trabalho, à experiência, ao sucesso da mulher na administração pública, acabam conferindo maior ênfase ao prestígio feminino.
Essa é a configuração que contorna o perfil de Roseana Sarney. O sobrenome estabelece a ligação com José Sarney, que tem permanente visibilidade na mídia, a partir do caldo de visibilidade natural em torno de um ex-presidente da República, muito prestigiado no Nordeste, pela longa história política e programas que deixaram marcas simpáticas no coração do povo, como o Programa do Leite.
O vínculo com a tradição política, acrescido do ranço negativo que a cultura nordestina consegue imprimir aos perfis políticos, não açoita a imagem de Roseana. Primeiro, porque ela criou uma identidade própria, de autonomia e independência em relação ao pai. Segundo, porque está desempenhando com sucesso um segundo mandato. Reorganizou a máquina governamental e parece se comprometer com um estilo novo de política, tarefa complexa e difícil em uma região que se acostumou com os viciados padrões do apadrinhamento, fisiologismo e mandonismo.
Trata-se, ainda, de uma governadora jovem e bonita, que transmite aquele sentimento de assepsia, tão do gosto do brasileiro enojado com escândalos, falsas promessas e perfis recorrentes. Roseana se assemelha a um contraponto à mesmice encarnada pelos homens e suas histórias escabrosas. Com o auxílio de uma mídia pesada, com capacidade de fincar sua imagem nos mais distantes rincões, a governadora do Maranhão poderá facilmente se encaixar no centro daquele imenso vazio que se formou no centro da sociedade. É claro que sofrerá uma campanha que tentará vincular a condição feminina à incapacidade de administrar os problemas nacionais. O regionalismo do perfil será acentuado, bem como será provável a ligação que se fará com o significado da política, a partir do nome Sarney.
Roseana terá de superar tudo isso. Não será fácil. O calcanhar-de-aquiles a fustigar sua imagem poderá estar próximo ao território do discurso. A governadora precisa introjetar rapidamente uma noção do País, dos problemas nacionais. Poderá ser engolida pela avalanche de conceitos e demandas de regiões como o Sudeste.
O que pretende o PFL? O partido está fazendo marolas em torno da governadora para, no mínimo, garantir a pole position ao segundo carro, ou seja, o cargo de vice na chapa presidencial. Pois muito pouca gente acredita que o PFL entre no páreo com uma candidatura própria, condição mais aceita no PMDB, cuja convenção nacional decidiu pela candidatura própria, decisão que o presidente do partido, Michel Temer, promete cumprir rigorosamente.
Como em política tudo pode ocorrer, Roseana poderia ser a candidata do PFL, com o apoio do PSDB. Se continuar subindo nas pesquisas, os tucanos terão de se conformar em posar em galhos mais baixos na floresta da eleição.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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