O senso comum tem lá suas maneiras de ler o mundo. Em verso, trova, ditado ou prosa. Pode até abrasileirar personagens alienígenas, montando estórias que num piscar de olhos passam de anedota a paráfrase de alguma lei de sociologia política. Fizeram isso com a famosa dupla das histórias em quadrinhos, o Zorro (versão norte-americana, de cavalo e chapéu brancos) e o índio Tonto. A piada conta que um dia os dois estavam passando por um desfiladeiro, naquelas regiões desérticas do Oeste, com cactus, rochas e arbustos sendo levados pelo vento. De repente, no alto das montanhas aparecem centenas de índios, todos com jeito de quem quer emboscar. Zorro dá uma olhada geral, engole em seco e murmura ao seu fiel companheiro: ‘‘Ah Tonto, parece que nós estamos em apuros’’. E o Tonto, de soslaio, olhar semicerrado e ar de enfado, responde: ‘‘Nós, quem, cara-pálida? (Tonto era tonto só no nome)’
O senso comum cristalizou a frase ‘‘Nós quem, cara-pálida’’ no imaginário político, para indicar aquela situação em que alguém está prestes a trair companheiros antes inseparáveis. Pois observando a movimentação partidária da semana passada, no Paraná, a estória poderia ser entre pedetistas diante da desfiliação iminente do governador Jaime Lerner. Um diria, enfático: ‘‘Nós vamos sobreviver, companheiro!’ E o outro, de soslaio, olhar semicerrado e ar de enfado, responderia: ‘‘Nós, quem, cara-pálida?’
A dúvida do final-de-semana, caros paranaenses, era saber quem seria o último que apagaria a luz e fecharia a porta. E se haveria quem fosse receber Leonel Brizola no aeroporto. Exagero, claro. Mas o que se viu foi com quantos rojões se faz um partido majoritário.
No futuro, porém, quem quiser estudar esse fenômeno histórico, apenas lendo os jornais da época, ficará decepcionado. A imprensa aproveitou muito pouco, quase nada, deixando para trás mais uma grande oportunidade de promover senso crítico no senso comum. Não se viu ninguém pedindo explicações a respeito de como se muda de um partido populista para um partido elitista, por exemplo. Aliás, é justamente por causa desse desinteresse por pesquisa jornalística mais aprofundada que as danças de mudanças partidárias acontecem tão amiúde. Quem é que, algum dia, teve a presença de espírito jornalístico para perguntar ao governador Lerner qual era a sua concepção e seu conceito de Estado. Se alguém perguntou, não publicou; se publicou, publicou tão discretamente que ninguém viu.
Tivessem perguntado, a imprensa não teria incomodado tanto o governador paranaense com perguntas a respeito de sua saída do PDT. Ora, é gritante que os atos de governo de Lerner, no principal, nada tinham a ver com o ideário pedetista que, segundo reza o Estatuto, é antiimperialista, socialista e popularista. O PDT é nacionalisteiramente contra indústria estrangeira em solo pátrio. Lerner saiu porque nunca entrou. Ou, se entrou no PDT, o PDT não entrou nele.
Também não há perguntas aos deputados que debandaram de seus partidos e migraram para o PFL. Conheciam os 20 princípios do ideário pefelista? Como um socialista se transforma em um liberal? (Talvez fosse melhor perguntar, primeiro, quem leu o Manifesto, o Programa e o Estatuto do partido, seja o da origem, seja o do destino).
Infelizmente, essa cobertura histórica da imprensa raramente deixa a superfície oficial. Não fosse assim, os brasileiros imersos no senso comum poderiam amadurecer um pouco o senso crítico, tornando-se menos conformados com modelos e procurando mais um padrão de política civilizada. Poderiam saber o motivo por que no Brasil vota-se em pessoas, não em partidos. E por que aqui a democracia é governada, não governante.
Se, sob certos aspectos, os cidadãos têm tido curiosidade nas contradições econômico-financeiras do País, alardeadas por obra de comissões parlamentares de inquérito, isso se deve à presença observadora e crítica da imprensa independente. Obviamente, pesquisas de opinião ainda revelam que a maioria está entendendo bulhufas. Mas já despertou a curiosidade, isso despertou.
Se a imprensa se contentar com explicações rasas dos fatos políticos importantes, permitirá a impressão de que houve foi um grande fandango de vampiros, o que é injusto e desmerecido aos excelentíssimos homens públicos do Paraná.

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