A Rede Globo orgulha-se de exportar suas novelas, inclusive para o mundo árabe. E o mundo árabe são 22 Estados, cerca de 250 milhões de habitantes, divididos entre o Norte da África, o Golfo Pérsico e o Oriente Médio. Nem todos os países árabes são muçulmanos, como nem todos os muçulmanos são árabes. Irã, Turquia, Paquistão e Indonésia, que estão entre as maiores nações muçulmanas, não são países árabes. E milhares de palestinos, libaneses e sírios professam a fé cristã, apesar de serem árabes. Difícil entender estas diferenças em tempos de guerra, quando se confunde árabe com muçulmano, muçulmano com terrorista. Neste sentido, a novela ''O clone'', de Glória Perez, não veio para esclarecer, mas para confundir.
Se todos concordam que novela é ficção, sabemos também que a novela funciona como paradigma de cultura no imaginário popular. Para pessoas menos informadas, na China e no Marrocos, por exemplo, a ''Escrava Isaura'' era uma personagem brasileira contemporânea. A confusão se instala quando a ficção e a realidade mesclam os tênues limites que as separam para construir uma imagem irreal do que é real. Nesse sentido, a novela ''O clone'' corresponde ao estereótipo da falsa cultura que se pretende real. Todos os ingredientes caricaturais do que há de mais retrógrado no Marrocos estão aí representados.
Eu não identifico neste cenário as pessoais reais com que convivi durante os sete anos em que morei no Marrocos. Não sou marroquina nem muçulmana, mas fui casada com um marroquino durante 17 anos e pude desfrutar da intimidade da vida familiar desse povo extremamente acolhedor.
Reajo porque sei do que estou falando. A novela se passa nos anos 80. Justamente morei entre 1983 e 1990 no Marrocos, onde exerci as funções de jornalista na imprensa marroquina de expressão francesa e de professora na Escola Superior de Jornalismo. Já nesta época, tanto minhas alunas como minhas colegas de trabalho tinham liberdade para escolher seus maridos, fazer carreira profissional e até pilotar aviões de linhas internacionais.
Convivíamos com as diferenças que fazem a diversidade de uma cultura, e não nos chocava a preservação dos costumes em áreas rurais onde as famílias cultivavam o ritual de um casamento arranjado. Mas a moça sempre tinha o direito de recusar o noivo que não lhe agradava. E nas cidades grandes era impossível impedir que os namorados dessem suas ''escapadas'' para um convívio mais íntimo, sem que ninguém recebesse ''80 chibatadas'' por isso. Casar com um estrangeiro, para uma mulher, já era mais difícil. Mas não impossível. Bastava se converter ao Islã, o que muitos estrangeiros, franceses principalmente, sinceramente ou não, faziam de bom grado.
Portanto, um olhar mais atento à formação da sociedade árabe-muçulmana e seu comportamento atual teria ajudado a autora a evitar certos equívocos.
O que mais choca na novela de Glória Perez é a visão distorcida do universo feminino. Desde quando um homem comanda a vida das mulheres no recinto familiar? Nem no belíssimo relato da socióloga e feminista marroquina Fátima Mernissi ''Sonhos de Transgressão'' , sobre a vida em um harém de Fès nos anos 40, os homens tinham esse poder.
A ausência da figura da mãe, na trama, é também algo significativo. Talvez seja proposital, já que o título da novela indica que a vida pode ser criada artificialmente. A única mãe morre no primeiro capítulo.
Ora, quem viveu na intimidade marroquina sabe que quem exerce o poder dentro de casa é a mulher. Quem educa as filhas é a mãe. Jamais um homem perguntaria à moça se ''seu sangue já veio''. Muito menos entraria no quarto nupcial em comitiva para checar a virgindade da noiva pela mancha de sangue no lençol. Até porque ninguém é mais ingênuo a ponto de fazer tal exigência. Por US$ 100, qualquer cirurgião plástico de Casablanca refaz o hímen.
A obsessão pela dança do ventre é outra característica da novela com explícitos fins de ibope. A prática está em alta. Até parece que estamos numa academia de dança no Brasil. As marroquinas não usam aqueles trajes de dançarinas egípcias. Turistas pagam para ver exibições de odaliscas em boates e hotéis de luxo.
Em tempos de crise, o Marrocos achou que lucraria projetando o país através das telas da Globo. Afinal, o turismo representa a segunda maior riqueza do país. Quem diz turismo diz também artesanato, outra fonte de divisas, junto com o fosfato, para o país. O que o Marrocos não esperava era ver-se retratado pela ótica do exotismo fácil. Mulheres enclausuradas, odaliscas, poligamia, camelos e tuaregues são apenas alguns ingredientes que confirmam os esteréotipos construídos pela desinformação. Talvez por isso o Egito, onde, de acordo com o roteiro original, ia se passar uma parte da novela, tenha recusado à Globo o visto das filmagens.


- ZÉLIA LEAL ADGHIRNI é jornalista e doutora em Comunicação; professora e pesquisadora da linha de Estudos de Jornalismo no programa de pós-graduação da FAC/UnB

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