O experimento dos vereadores de Uraí
Importa pouco saber as razões que levaram os vereadores de Uraí, na região norte do Estado, a suspender os salários do corpo legislativo a partir do ano que vem. Se dos nove vereadores da Casa oito são candidatos à reeleição, eles estão conscientes de que irão trabalhar de graça, se reeleitos. Importa que este é um experimento único no Paraná, nos tempos atuais, e será valioso saber como irão se comportar os vereadores que, em princípio, se habilitam a servir à comunidade sem nada visar em troca a não ser a honraria do cargo. Ao que se sabe, somente outra cidade, esta no Rio Grande do Sul, começará a nova legislatura sem o ônus de pagar os vereadores. Ao menos em Uraí, os 113 candidatos à Câmara Municipal parecem dispostos a ingressar nela mesmo sem perspectiva de ganho, embora possa ocorrer que os eleitos que não sejam os atuais vereadores ou ao menos a maioria deles restabeleçam o salário. Alguns concorrentes já manifestaram que, se eleitos, irão propor a volta do pagamento. Moradores do lugar, ouvidos pela reportagem deste Jornal, não parecem tão favoráveis à gratuidade, e a razão não é propriamente a comunidade ter de pagar ou não, mas o conceito que os cidadãos têm dos políticos, em Uraí como de resto em todo o Brasil. Boas ou más ações dos políticos são sempre cercadas de desconfiança. Se eles nada fazem, são estigmatizados por isto, e se fazem, ''é por algum interesse'' que não seja o do povo costuma-se ouvir. Os políticos são reflexos da comunidade, porque extraídos desse meio social. Portanto, não serão eles que melhorarão a qualidade do meio em que vivem, mas o contrário. A decisão de Uraí causa algumas inquietudes, porque não faltam os temerosos de que a moda pode pegar, e nem será preciso uma imaginária incursão pelas mentes dos candidatos para saber que a maioria deles busca um emprego e o poder, e que é baixo o teor de espírito público. A história política brasileira o demonstra embora a nação tenha tido governantes e políticos de grande valor e expressão e que, por isso, ganharam os respeito dos cidadãos. A ausência de salário não é garantia de honestidade, em qualquer casa legislativa, porque os acenos de vantagens paralelas são muitos, uma vez que também o meio é corrompedor, por tradição que vem dos tempos do Brasil colônia, tendo começado por via dos ''homens de confiança'' das Côrtes de além-mar, que as enganavam. Esse ensinamento acabou assimilado e facilmente incorporado, sendo também aí que se originou o ''jeitinho brasileiro''. Uraí é uma cidade nova, colonizada principalmente por japoneses e seus descendentes, e guarda tradições estribadas no desbravamento e no trabalho da lavoura. Pode ocorrer de o município converter-se em paradigma, ao menos no Paraná, e que a gratuidade do cargo de vereador se perpetue e passe a constituir ponto de referência.





