A suspensão do salário dos vereadores em dois municípios brasileiros a partir do ano que vem em Uraí, no Norte do Paraná, e em Campina do Sul, no Rio Grande do Sul servirá como experimento do novo sistema e como modelo para se aferir o comportamento de candidatos e de eleitos. Crê-se que, sem a expectativa de vencimentos, só se apresentem os candidatos realmente dispostos a servir, e que se afastem os que visam o cargo apenas como emprego e para vantagens ilícitas. O teste servirá também para saber-se como agirão os eleitos, porque não irão faltar as tentativas de suborno sobre eles de parte de quem almeja a aprovação, ou não, de determinado projeto e outras tentações que a função propicia. Não será, portanto, apenas a suspensão do ganho que eliminará possibilidades de corrupção, porque amplas vias, com acenos tentadores, se abrem ante os que ocupam cargo público.
O corte de vencimentos, nas duas Câmaras, foi proposto e aprovado pelos próprios vereadores, ressaltando-se que todos eles declaram-se candidatos à reeleição, isto significando que, com o ato, atingem a si próprios. Uma das alegações dos vereadores de Uraí (que são 9 e recebem R$ 816 ao mês, mais outras verbas de representação) é que, a partir do novo regime, eles (e os novos que surgirem) já não poderão ajudar financeiramente os pedintes e os remeterão diretamente à Prefeitura. A estimativa é de uma economia de R$ 600 mil para o município (de 11 mil habitantes) no quadriênio, embora o Executivo irá passar a atender mais gente carente que agora busca os vereadores, e isso representará gasto.
De qualquer forma, além de constituir fato novo nos tempos atuais, a suspensão dos próprios salários, pelos vereadores, afigura-se como exemplo de desprendimento e de vocação para o serviço público. Embora não dê garantia de moralidade absoluta, esse modelo imporá novos padrões no âmbito dessas casas legislativas e sobre a imagem do vereador, que passará a ter função honorífica e ganhará maior respeito dos cidadãos. Os dois exemplos são ainda oásis no imenso deserto representado pelo Poder Legislativo, em todas as suas esferas, mas é um indicativo de que não é necessário ganhar para servir. Se há cidadãos que não se habilitam a trabalhar de graça como parlamentares, há os que o desejam, e estes deveriam ter preferência sobre aqueles. Se fosse possível um teste nesse sentido, certamente apareceriam tantos candidatos sem anseio de ganho quanto os atuais, não só para as Câmaras de pequenas cidades mas também das maiores, e não apenas para elas mas igualmente para as Assembléias Legislativas e para o Congresso Nacional.

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