O exercício de entender o mistério - Walmor Macarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de maio de 1999
Walmor Macarini 
O homem se ocupa demais com o mistério da morte e não se apercebe de algo mais relevante que é o mistério da vida. Tem o dom de viver, respira, mesmo enquanto dorme, e não se detém para imaginar como isto acontece. Ao comando da mente, move os dedos, e nem lhe ocorre indagar-se como funciona esse mecanismo. Pensa, voa, e em fração de segundo desloca-se para os confins da Terra, viaja além das estrelas, e nem se pergunta como pode chegar tão longe.
Vê todos os dias o surgir e o apagar do sol, da lua e das estrelas, e nem se dá conta que esses corpos celestes repetem há bilhões de anos o mesmíssimo percurso, com milimétrica precisão. Que algum obreiro faz plantão noite e dia para que não se quebre a harmonia da natureza e de todas as coisas do universo.
Contempla o nascimento de um novo ser e atribui isto a um simples fenômeno genético. Não se curva para imaginar como pode ser possível essa alquimia e como estava manifesto ali o sopro da vida.
Deposita na terra a semente, sem atentar como em seu núcleo habita uma árvore, e por acréscimo as flores e os frutos; que se a semente é de uma espécie, germinam árvores dessa espécie, nunca diferentes. Finca na terra um ramo de roseira, e nem por instante se pergunta como pode estar dentro dele uma rosa, que no momento certo florescerá, e onde estava a tinta que a tingiu de vermelho... e de múltiplas cores todas as demais flores. Se abrir o ramo, não encontra a rosa, mas ela está lá... Um fenômeno genético, será a explicação que ouvirá. E de onde traz a terra a sabedoria que faz explodir a semente em forma de uma flor?
Quem colocou o pássaro dentro do ovo?
E o instinto animal, consciente de que está gerando dentro de si um semelhante? Quem lhe deu esse instinto, ou essa consciência? E o leite materno, que chega no momento preciso, sem que ninguém o haja encomendado?!
Por que o pássaro teme o homem mas não teme o boi e até passeia montado em seu dorso? Quem lhe ensinou que o homem pode destruí-lo ou aprisioná-lo, e que o boi nenhum mal lhe fará?
Pelo subterrâneo e pela superfície correm as águas, e o calor do sol as faz emergir e bailar no espaço convertendo-as em novo manancial que irá lacrimejar sobre a terra na exata medida, fazendo germinar a semente. Um milagre a que assistimos, sempre prestar maior atenção.
A chuva limpa os telhados, as calçadas e as ruas, leva para o esgoto os resíduos e as impurezas, irriga as pastagens e por extensão proporciona ao homem o leite e a proteína animal. Às vezes, se chove demais, o homem ainda maldiz a chuva, para depois lamentar quando ela lhe falta... Amaldiçoa o sol escaldante, mas não se furta de seu abrigo nas manhãs do inverno...
E quem controla o fluxo e o refluxo das marés?
O homem não percebe a maestria de quem fez a noite, para o seu repouso e para que lhe fosse permitido sonhar, e que na hora aprazada alguém acende as luzes do novo dia, a anunciar que outra noite virá e depois um dia mais, e outros tantos, para que se concretize a realidade dos seus sonhos...
Pouco se dá conta, o homem, de que, enquanto vai e volta, alguém, em algum lugar do campo ou da cidade está semeando o trigo que será o seu pão de amanhã e fabricando uma par de sapatos exclusivamente para ele; que, enquanto ele próprio produz algo para quem daquilo precise, o cientista está buscando a cura para as doenças; alguém está inventando coisas para tornar melhor a vida das pessoas; que enquanto o ferreiro forja o ferro e faz o arado, o trabalhador do campo põe na mesa da gente das cidades o alimento, todos os dias; que há música no ar e que alguém a captou para que todos ouçam e cantem!
(A propósito, temos nos lembrado de agradecer por todas essas dádivas? O agradecimento, mental ou pronunciado, alcança a pessoa a quem se destina, ao tempo em que semeia vibrações harmônicas, beneficiando por extensão um maior número de pessoas e todo o ambiente. O mesmo se dá, em igual intensidade, com os sentimentos contrários).
O homem é maior do que se supõe, mas atribulado em ferrenha disputa apenas para alimentar sua vida terrena. Vê a grandiosidade e a beleza de tudo que o cerca, e a precisão com que isto funciona, mas custa a harmonizar-se com estas coisas, porque ele próprio não se equipara tão grandioso, ignorando que é o centro e a razão de tudo o que é e existe. Por julgar-se pequeno diante do fantástico que o envolve, vive em desarmonia com o conjunto.
Ambiciona conhecer um dia o criador de todas as coisas, mas isto nunca acontecerá da forma que o imagina. Porque o criador está diante de seus olhos, presente em tudo que o rodeia. Basta que queira ver. Não se habitua a olhar e reverenciar a grandiosidade e beleza do principal, e por isso confunde-se diante de fenômenos acessórios. Tudo é um só milagre...
O homem, em grande maioria, não veio sendo exercitado para a arte de compreender o mistério, portanto não identifica o que transcende o seu estreito entendimento, e por não entender, nega. Mas quando se vê diante do inusitado, que extrapola os limites de sua compreensão, então prostra-se, perplexo e desorientado. Não atenta para o milagre tão mais grandioso que é a realidade misteriosa e bela que desfila diante de seus olhos a todo instante e que está presente ao seu redor e em seu próprio ser.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


