Tenho a maior admiração pelo Canadá. Um dos melhores países para se viver. Durante doze anos consecutivos, atendi uma Comunidade Portuguesa em Ontário, nas minhas férias. Aprendi um pouco como vivem e pensam os canadenses. Um povo multirracial, oriundo de todas as partes do mundo, voltado essencialmente para o trabalho. Passei a admirá-lo mais agora, quando se manifestou a favor da solução de dois Estados para a questão Palestina.

Escrevo aqui, no entanto, para me referir ao posicionamento deste país, perante os arroubos totalitários de Trump. Tudo começou quando o inquilino da Casa Branca, após acusar o vizinho de propiciar imigração ilegal e narcotráfico, a ele se referiu como o 51º Estado Americano! O ricochete veio de imediato! O Partido Liberal, do atual primeiro-ministro Mark Carney, que tudo indicava, perderia a reeleição, enfrentou o insulto à altura e recebeu o resultado improvável nas urnas: venceu o pleito!

Os dois países estão ligados umbilicalmente! Na fronteira entre eles, se existe algum controle efetivo, deve-se à preocupação americana de que fosse usada para a entrada de imigrantes ilegais. Os Estados Unidos e o Canadá têm uma das maiores relações comerciais bilaterais do mundo, incluindo um mercado energético e automóvel altamente integrado. Em 2022, os Estados Unidos eram o principal destino das exportações canadenses. Por sua vez, o Canadá foi o maior comprador de bens dos EUA nesse ano, recebendo 17% das exportações desse país, que forneceram quase metade das importações canadenses (278,9 bilhões de dólares).

Portanto, falamos de parceiros comerciais gigantes com vínculos afetivos históricos. Isso é sagrado. Mas não para Trump! Na semana passada incluiu o Canadá na lista a quem serão aplicados os 35% sobre as exportações aos EUA. Uma medida injusta, desleal, autofágica. A novidade desta tresloucada medida não está, porém, em Washington. Dali, o mundo já aprendeu a não esperar nada razoável! O que nos chama a atenção é a reação de Ottawa! Em uníssono, da esquerda à direita, de Norte a Sul, da Nova Escócia a Vancouver, o país reagiu à altura da agressão americana! Uma união nacional, como nunca se vira em tempos de paz.

A disputa chegou até ao café. A bebida conhecida popularmente como "café americano" na América do Norte agora foi rebatizada no Canadá como "café canadense". Milhares de turistas que visitariam os EUA cancelaram as suas viagens. Nas prateleiras dos mercados sobram produtos americanos e se esgotam os autóctones. Multiplicam-se nas ruas as piadas envolvendo caipiras do Centro Oeste. Querelas políticas internas não ofuscaram o enfrentamento ao inimigo comum! Nenhum deputado da extrema direita louvou a insanidade de Trump! A nação cerrou fileiras para se defender de um inimigo externo, até ontem incogitável!

O Canadá sempre foi um país progressista no pleno sentido do termo. A saúde e a educação públicas são exemplares e a infraestrutura magnífica proporciona serviços que funcionam de forma espetacular. É um país de braços abertos a emigrantes e refugiados e orgulha-se de reconhecer que a nação foi construída por essa gente. Fiquei impressionado, na cidade de Toronto, ao ver bandeiras do Canadá em quase todas as casas, em ruas de maioria oriental ou latino-americana! Viver no Canadá é assumir de imediato os valores daquele país! Meu amigo me referiu que a política se discute mais do que nunca e que parece haver certa polarização, à imagem do que se vê mundo afora. Contudo, o senso de pertença e de cidadania se impõe contundentemente.

O que observamos no Brasil é dilacerante. Um país agredido sobremaneira injustamente (sobretaxa é política e não econômica) e que se divide vergonhosamente na hora de reagir. Homens públicos que se posicionam sem pudor ao lado do agressor! Traidores, que recebendo altos salários, trabalham incansavelmente contra as instituições nacionais. Termino com uma famosa anedota árabe: “eu contra o meu irmão. Eu e meu irmão contra o meu primo. Eu, meu irmão e meu primo, contra todos”!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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