O exemplo de Tancredo - Ruy Fabiano
Há algo de pedagógico na presente reforma ministerial. Ela ensina que, nos termos em que estão assentados o sistema partidário e a base política do governo, não há como fazer reforma alguma. Não ao menos com a autonomia que o presidente Fernando Henrique reivindica.
O presidente revive a angústia de Tancredo Neves, em 1985, quando montou um ministério caleidoscópico, fruto de monumentais pressões de todas as forças políticas que o apoiaram na eleição do colégio eleitoral. Tancredo não sobreviveu fisicamente ao sufoco.
Quem herdou a barafunda foi José Sarney, que até hoje se queixa de ter governado sob hipoteca política. No caso de Tancredo, as pressões eram até mais simples, na medida em que apenas dois partidos, embora cada qual com várias facções, o apoiavam: PFL e PMDB. E mais: não estava em pauta, naquele momento, nenhuma eleição.
No caso de Fernando Henrique, além de haver nada menos que cinco partidos em sua base - PMDB, PFL, PSDB, PPB e PTB -, a reforma dá-se às vésperas da campanha eleitoral. Todo mundo quer seu naco de poder e ninguém admite que espaços nobres fiquem em mãos adversárias.
Fernando Henrique, até aqui, portou-se como refém de seus aliados. Precisava deles para concluir o processo de reformas. O processo está em fase conclusiva, mas há ainda pendências importantes, como a reforma tributária. O presidente não quer saber de rupturas. Não quer morrer na praia. Daí a cautela com que age e (não) reage.
Diz que a decisão é dele, que não admite pressões, que não é assim que se monta um ministério, mas, na prática, tem cedido aos protestos e argumentos de seus aliados. Manteve-se inflexível apenas em relação a José Serra, até porque, caso não o fosse, perderia o senso de autoridade. Seu desafio é exatamente este: preservar sua autoridade em meio a tantas pressões e resistências.
Suas dificuldades decorrem não de inaptidão para comandar, mas da inviabilidade do sistema político-partidário brasileiro. Sem fidelidade partidária, a coalizão que governa não pode ser cobrada pelos compromissos programáticos que assumiu. Cada partido - e, dentro dele, cada parlamentar - faz o que bem quer e entende.
Por isso, cada votação no Congresso é uma novela à parte. O balção de negócios está em permanente funcionamento. E o que mais se negocia nele são cargos no governo. Fernando Henrique pretendia fazer da presente reforma uma oportunidade para dar a seu ministério perfil mais técnico. Quando se diz perfil mais técnico o que se quer dizer é maior eficiência operacional - menos politicagem.
Não está conseguindo. Os partidos já desconfiavam desse tipo de atitude, que os poria longe dos instrumentos de poder. Quando o presidente precipitou a reforma nomeando o senador José Serra (PSDB-SP) para ministro da Saúde, aí o caldo entornou de vez.
O presidente apresentou Serra como solução técnica, um gerente para a saúde, mas os adversários continuam a vê-lo de outra forma: um concorrente com muita saúde para as eleições presidenciais de 2002.





