O estilo Lula
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quinta-feira, 29 de maio de 2003
René Ruschel 
Ao assumir o cargo de presidente da República, Fernando Collor de Mello disse que deixaria ''a esquerda perplexa e a direita indignada'' ou vice-versa. A frase, também não necessariamente nesta ordem, caberia perfeitamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhum analista político foi capaz de prever durante a campanha eleitoral o que se sucederia no governo petista. Até o momento, ele tem dado demonstrações de sobra de sua capacidade de articulação aliada ao carisma e pragmatismo. As pesquisas de opinião indicam que nunca um presidente em início de mandato obteve um índice de aprovação popular tão alto quanto o auferido por Lula.
As repercussões não se dão apenas no âmbito interno. O empresário Antonio Ermínio de Moraes, que apoiou o candidato tucano José Serra nas últimas eleições e possivelmente seria o último dos mortais a assinar uma ficha de filiação ao PT, afirmou recentemente que ''o Brasil está sendo realmente elogiado no exterior''. Por irônico que possa parecer, a oposição ao presidente está dentro do seu próprio partido. Até agora, Lula esvaziou completamente o discurso dos pretensos adversários.
Sua ascensão ao cargo máximo da Nação rompeu com uma série de paradigmas que pareciam arraigados à cultura do país. A começar pelo fato de não ter um diploma de curso superior. O segredo de Lula parece estar, em primeiro lugar, em gostar do que faz; e a seguir, em fazer e falar o óbvio. Dono de uma linguagem simples e direta, de hábitos rotineiros e comuns a qualquer cidadão, que somados à experiência política adquirida ao longo de mais de duas décadas o transformaram num líder incontestável. É possível que qualquer brasileiro oriundo das classes sociais mais pobres nunca tenha se sentido tão igual a um presidente como agora. Aliás, sua estratégia de campanha sempre procurou vender esta imagem.
O que se questiona e com razões de sobra é se a estratégia adotada não seria uma versão moderna das velhas práticas políticas, onde a busca incessante e sem limites pela hegemonia faria com que o jogo do vale-tudo fosse praticado ou então ressuscitasse o modelo franciscano do ''é dando que se recebe''. Lula sinaliza que não e diz que o Brasil requer a aprovação imediata das reformas que seu governo propõe. Para tanto está disposto a discutir e negociar, dentro dos padrões éticos, com todos os segmentos da sociedade o que ele prefere chamar de ''cumplicidade''. Como sintoma desta boa vontade tem dito aos que o criticam que apresentem sugestões uma vez que não teria o menor constrangimento em aprovar qualquer medida que seja boa ao país, mesmo àquelas sugeridas pelos ''Fernandos'' Collor ou Henrique Cardoso.
A despeito do rigor de qualquer análise, o presidente Lula impôs seu estilo de governar. Se por razões óbvias ainda é impossível avaliar os resultados de qualquer medida proposta, politicamente ele tem avançado a ponto de provocar um movimento migratório pró-PT. Neste caso, ou seja, o inchaço do partido, poderá vir a ser preocupante, afinal, como dizia Nelson Rodrigues ''toda unanimidade é burra''. E em política a coisa é ainda pior.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


