Há pouco mais de um ano, no dia 27 de outubro, o Brasil elegia de forma direta seu primeiro presidente de esquerda. Após treze anos de tentativas e três derrotas nas urnas (uma para Fernando Collor e duas para Fernando Henrique Cardoso), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistava o posto de maior poder no país com a promessa de acabar com a fome e gerar empregos. Pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), em parceria com a Sensus, em janeiro deste ano, apontava que 78,4% dos brasileiros consideravam o governo ótimo ou bom e 83,6% aprovavam o desempenho de Lula, índices extremamente expressivos que comprovavam a esperança e a confiança que muitos depositavam em Lula.
Mas, hoje, as opiniões divergem entre os que aprovam as medidas do governo e aqueles que se decepcionaram com o presidente. As pesquisas já indicam queda em sua popularidade. A realizada pela CNT/Sensus em outubro aponta que 70,6% aprovam o desempenho do presidente, 13 pontos percentuais a menos que no início do mandato.
O soldador Hugo César Barros, 52 anos, está entre os brasileiros desacreditados com o país. ''Ele (Lula) tem boas intenções mas não acredito que ele consiga fazer alguma coisa porque não é só ele que manda. O país está numa camisa de força e parou de crescer'', afirma Barros. Ele também critica o Programa Fome Zero: ''O brasileiro não precisa de esmola e o Fome Zero é esmola. O problema é a educação e, depois, saúde e emprego''.
Para a empregada doméstica Fabiane Faneco, 31 anos, a situação também não está das melhores. ''Para mim não foi surpresa porque eu não achava que ele ia fazer alguma coisa, mas espero que ele consiga pelo menos fazer metade do que prometeu'', alfineta. A estudante Ana Paula Wong, 22 anos, também não confiava nas promessas do presidente eleito. ''Sabia que ele não ia cumprir porque não tem experiência política'', observa. A secretária Eliane Braguim, 28 anos, critica que Lula fez muitas promessas mas que não está colocando o discurso em prática. ''Ele prometeu mil empregos mas o desemprego continua grande. Acho que quem esperava muito dele se decepcionou'', conclui.
Mas, ao contrário dessas opiniões, muitos elogiam as ações de Lula. O supervisor de produção Antônio Carlos Zanella, 32 anos, é comedido e afirma que ''Não está ruim porque houve uma evolução, mas podia melhorar''. Sua esposa, Nilma, 30 anos, se mostra otimista. ''Creio que vai melhorar em tudo''.
O funcionário da prefeitura Francisco da Silva, 30 anos, também não reclama. ''Por enquanto está bom''. A empregada doméstica Natasha Silva da Cunha, 26 anos, destaca que em alguns pontos o presidente obteve sucesso. ''Ele conseguiu tirar um pouco da fome. Tenho esperança que vai melhorar''.
O professor do departamento de filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) José Mário Angeli, faz um balanço positivo do governo. ''Penso que quem votou nele tinha clareza do momento econômico e político que o país estava vivendo e vejo que ele está realizando o que era previsível'', aponta. Ele enumera que entre as ações positivas está a estabilidade da moeda, controle da inflação e viabilização das reformas, além de conquistar credibilidade externa. ''Ele tem cacife para negociar'', salienta.
Mesmo considerando bom, Angeli lembra que a Reforma da Previdência desagada um setor grande da sociedade brasileira - a classe média. ''O Judiciário não foi atingido e estamos com esse setor fortalecido. A classe média perdeu alguns privilégios e reclama que terá que trabalhar e contribuir mais, o que é verdadeiro''.
Ele também aponta que o Fome Zero tem algumas dificuldades de se implementar pelas características do próprio sistema econômico do país, mas elogia a iniciativa. ''O Fome Zero não chega a ser uma política pública social mas é um trabalho que implica em desenvolvimento local e sustentável e isso é bom'', declara. Quando ao futuro, o professor é otimista: ''Esse momento ainda foi de crise mas a partir do ano que vem as reformas vão deslanchar e a tendência é a ampliação do espaço democrático''.
O economista Henrique Brito Gumerato divide esses primeiros 10 meses de governo em três fases. A primeira delas foi quando o governo atual criticou o anterior garantindo que mudaria a realidade. Depois, entrou a fase em que o presidente percebeu que não daria para fazer as mudanças almejadas porque a máquina administrativa não permitia. Só então, na terceira fase, é que as ações começaram a se efetivar.
Segundo Gumerato, somente nos últimos três meses é que Lula começou a governar. ''De concreto, ele reestabeleceu a credibilidade internacional dele, começou a sinalizar melhoras na economia com a redução de juros e abertura de linha de crédito. Vejo isso de forma positiva'', descreve. Sobre o tempo em que Lula ficou ''adormecido'', o economista justifica que ele não conhecia o sistema. ''Ele era estilingue e agora virou vidraça'', compara. Mas mesmo tendo começado a ''governar'' só nos últimos meses, Gumerato diz que os sinais do presidente são positivos. ''Ele superou as minhas expectativas'', finaliza.

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