Você é contribuinte pródigo. Não é cidadão. Tem obrigação de pagar, mas não tem o que desfrutar. Você é contribuinte total, mas é cidadão subtotal. Paga impostos sobre tudo, com efeito cascata e outras distorções. Mas, na ausência da boa escola pública, tem que gastar com escolas particulares, se quiser garantir a inserção do seu filho no mercado de trabalho. Você não tem segurança. E o Estado ainda cruza os braços diante da exclusão infantil e juvenil. Pouco é feito para tirar aquela criança da rua evitando que ela - por falta de oportunidades - cresça revoltada e corra o risco de cair na marginalidade. A esta altura o Estado, que nega a segurança para você, não garante que ela existirá, no futuro, para os seus filhos. Ninguém nasce bandido; a falta de oportunidades para uma vida digna é que torna crianças, adolescentes e adultos revoltados.
Tem mais: você quer ver a reforma agrária como opção para reduzir problemas sociais. Mas a reforma agrária não sai e o governo é omisso com relação às invasões violentas. Parece interessado no agravamento do conflito da posse da terra. Passa a mão na cabeça de organizações suspeitas, que deixam dúvidas quanto ao seu real desejo de ter um pedaço de terra para produzir. Querem o poder, mesmo que pela violência.
Pois é, este quadro mostrando a omissão do Estado, gastador e pouco eficaz, não é coisa da sua cabeça, nem é uma constatação aleatória. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concluiu um estudo (‘‘Presença do Estado no Brasil’’) mostrando a atuação do setor público nas esferas federal, estadual e municipal. É uma lástima.
De um total de 5,5 mil municípios brasileiros, exatos 1.875 (33,5%) não têm atendimento pelos SUS. Na verdade, não têm atendimento algum porque nesses lugares não há ambulatório, não há unidade de internação ou qualquer serviço mais avançado de saúde pública.
Outro problema ligado ao SUS: chega a quase mil o número de localidades em que o SUS não pode dispor de aparelhos para diagnósticos e terapias. E ainda há no Brasil cerca de 420 localidades sem médico do SUS.
A propaganda oficial é colorida e diz outra coisa, mas o Brasil real ainda tem um traço do tempo do Jeca Tatu. É verdade que ninguém espera que problemas tão antigos sejam resolvidos em apenas um governo. Mas o avanço nos últimos governos - inclusive o atual - foi muito tímido. Os números da miséria não deveriam assustar tanto, num governo que arrecada fortunas e desperdiça horrores.

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