O Estado-espetáculo - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de dezembro de 1998
Gaudêncio Torquato 
Há, na sociologia política, uma hipótese que pode muito bem explicar certos fenômenos que mexem com o estado dalma da população. A sobrecarga das demandas sociais aumenta as frustrações com o desempenho do Poder Público, levando grupos a procurar mecanismos de recompensa psicológica. Não necessariamente por isso, mas certamente tendo alguma coisa a ver com essa abordagem, imensos contingentes nacionais são atraídos por conteúdos diversionistas que funcionam como contrapontos compensatórios nos momentos de crise. E quanto maior a crise, maior será o sucesso dos ratinhos livres, leões selvagens, xuxas, louras e morenas do tchan, credos evangélicos e padres carismáticos. À fragilidade do Estado-provedor do bem estar contrapõe-se o Estado-espetáculo, com seu teatro de formas lúdicas e elementos ficcionais. Trata-se de um território deteriorado, com instituições frágeis, conteúdos sociais amorfos, descrença geral na política, carente de cidadania, mas aberto à pirotecnia da mídia e à banalização dos costumes.
São bastante visíveis os sintomas de uma profunda crise, expressa pela deterioração de programas sociais, principalmente nos capítulos da segurança, educação, saúde e habitação. Só em São Paulo, contabiliza-se um efetivo de 15 mil policiais militares desviados das funções constitucionais de efetuar o policiamento ostensivo e preservar a ordem. Ficam recolhidos nas repartições públicas, exercendo funções burocráticas. A sociedade passa a cumprir missão do Estado, arcando com o alto custo de uma segurança privada. Os exércitos privados se multiplicam empurrando as forças públicas para um segundo plano. A marginália se expande e o medo se espraia, entrando nos horizontes de todos os segmentos. Os casos escatológicos exibidos nos programas populares, além de mecanismos catárticos para diversionismo das massas, expressam a agonia do sistema de saúde, a crítica ao aparato do poder público e apelo por melhor distribuição da justiça.
Ícone de um momento de descrença geral, o padre Marcelo Rossi, com seu axé-Jesus, usa a esteira da aeróbica do Senhor, para comover multidões, vestindo a liturgia religiosa com um manto espetaculoso, banalizando a doutrina e o dogma ao nível do universo tecnetrônico (mistura de tecnologia e eletrônica) e dando sentido ao conceito mcluhaniano de que o meio é a mensagem. Não há como deixar de se constatar a disfunção narcotizante do efeito teatral sobre o psiquismo de grupos que, ao buscarem na dança religiosa, um resgate de fé, alienam-se na dormência que os ritos, os signos e os ensaios coletivos provocam.
Que a liturgia dos atos é importante para criar estados de animação, não se discute. Transformá-la em matéria principal para segurar a fé constitui um grande risco. O processo de estandardização litúrgica dos credos, infelizmente, é o retrato mais que acabado de um tempo em que o principal dá lugar ao acessório. Não estaria existindo uma competição inócua entre católicos-carismáticos e evangélicos para ver quem faz o melhor espetáculo?
O Estado-espetáculo que mexe com a cabeça e introjeta tentáculos até em territórios religiosos, está fazendo adormecer a cidadania. Pois um cidadão que se acostuma a viver no mundo ficcional acaba transformando a versão em verdade e o meio em fim. Sem segurança, sem saúde, com educação precária, sem serviços essenciais básicos eficientes, o cidadão fica fragilizado e perde autonomia. E se perde autonomia, atenua o sentido crítico e a vontade de fazer valer direitos. Por outro lado, os gastos sociais do Estado tendem a ser direcionados mais para os setores com poder de pressão do que para os segmentos menos favorecidos.
Por isso, as massas procuram encontrar equilíbrio nas manifestações coletivas e no ludismo, seja nos esportes, seja na programação grotesca da TV. Os líderes do povo não são mais perfis proeminentes portando valores essenciais, como decência, respeitabilidade, honra, ética e civismo. São figurantes televisivos com porretes na mão, personagens exóticas, elementos canhestros, uma gente que faz do drama a comédia, da dor o escárnio e da escatologia o alimento rotineiro.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)


