O estado de liberdade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de janeiro de 2003
Walmor Macarini 
Os denominados insucessos são apenas coisas que não ocorreram da forma que esperávamos. Não são insucessos, mas resultados. E um resultado é sempre benéfico, porque nada acontece sem uma razão de ser. Mesmo que certo resultado seja penoso, no mínimo serve para alguma forma de avanço. O sacrifício da própria vida numa travessia perigosa pode resultar na construção de uma ponte. Essas doações de tantos foram pontos de partida que levaram a progressos materiais e espirituais da humanidade. Nada, portanto, ocorre em vão.
O homem não colhe apenas frutos maduros de tudo que faça; frutos verdes também são uma dadivosa colheita. Até na erupção de um vulcão há um proveito. Nada se perde, porque o próprio fenômeno da morte é um renascer. Não há que ninguém fazer-se herói diante dos demais, porque heroísmo já é o exercício da vida terrena, e vitória ainda maior é compreender que tudo tem um significado, mesmo que às vezes revestido de catastrófica adversidade. A vida é um perene triunfo. Porque há algo maior e transcendente que a rege.
A tristeza por perder bens e a alegria incontida por obtê-los são ambas demonstrações de apego. Tristezas e alegrias profundas são momentos de desequilíbrio emocional, portanto não se deve temer uma nem buscar ardentemente a outra. O simples estado de entender essas desnecessidades é o verdadeiro ingresso na plenitude do ser, que é a comunhão com o nosso Eu superior interno, o Eu crístico presente em cada um e pré-existente a todos os tempos, a que Jesus dava o nome de Pai.
Não devemos ser escravos de esperanças e nem das coisas da Terra e das coisas do Céu, porque tudo já está posto e disposto. Não se deve esperar pelo que já se possui. Alguém muito iluminado já nos revelou que o Reino está dentro de nós. E, quanto aos bens terrenos, desejá-los não é um mal, também não significando que abster-se deles seja uma libertação se a abstenção transformar-se em sacrifício.
Há que ter as coisas (se for do agrado tê-las) com desapego; e não tê-las (se houver essa decisão) com desapego idêntico. Na serenidade do desapego reside a sabedoria e a libertação. Não devemos nos apegar nem a amigos (basta tê-los) e nem a inimigos e estes são os que mais nos unem, porque os arrastamos como correntes presas aos nossos pés. A compreensão de que não há insucesso mas apenas um resultado; de que necessitamos de muito pouco para viver felizes; e de que somos uma grande fraternidade, este é o verdadeiro conhecimento e o verdadeiro estado de liberdade.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina.


