O esqueleto público
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de agosto de 1997
Gaudêncio Torquato 
Não há mais como disfarçar: o altar em que se reverencia a estabilidade econômica do país está fincado sobre um mar de areia-movediça. Em qualquer canto desse vasto território, pode-se juntar os ossos de um esqueleto público, que saiu de um corpo carcomido pela degeneração do parque social e de serviços básicos. Escolas públicas em estado de carcaça, hospitais sucateados com taxas crescentes de morte por infecção hospitalar, epidemias de dengue e sarampo, doenças do princípio do século que se imaginavam extintas; estradas esburacadas de norte a sul; esgotos a céu aberto em muitas capitais e cidades médias, crianças e jovens engrossando as fileiras da prostituição infanto-juvenil e a segurança pública ameaçada pelo motim de quartéis são os rápidos traços de um desenho social que se torna cada vez mais lúgubre.
O bom senso não admite negar a importância da mão férrea que segura a inflação. Mas o preço está sendo muito alto. Ao se vestir o Real, cabeça do Governo FHC, com uma armadura de aço, deixa-se o corpo social desnudo e exposto às intempéries. Que adianta jogar bilhões de reais nos 42 projetos do fabuloso programa Brasil em Ação se há um outro país que vegeta na inação, povoado por marginalizados, excluídos e indigentes, por uma violência de proporções extraordinárias que chega célere aos mais distantes rincões do interior? O povo aguentará até surgirem os primeiros resultados das obras grandiosas do Governo? E como se combate a violência com estruturas amorfas e quadros policiais desmotivados? Pode um policial sustentar uma família com um salário de R$ 300 a não ser se corrompendo e sendo parceiro da bandidagem?
E há ainda quem acredite na pesquisa feita por uma ONG alemã e se vanglorie do fato do Brasil estar sendo menos corrupto. A imprensa tem contribuido, sabe-se, para abrir os porões da corrupção, mas falta muito por fazer. Que adianta, por exemplo, termos uma CPI para investigar o dinheiro dos precatórios (a corrupção, na verdade, ganhou sofisticação até nos nomes), se alguns senadores quase melaram o relatório final que compromete figuras e instituições importantes? É corrupção por todos os lados. Até nos esportes, juízes são flagrados com o apito na boca, influindo nos resultados. O comércio ilegal de armas amplia o território das drogas e da violência. A falta de responsabilidade é geral: o líder do MST, Stédile, manda invadir terras, supermercados e escolas públicas. O país parece o faroeste americano.
O funcionalismo público vive a pior crise das inúmeras décadas. Cerca de 20 estados gastam mais de 60% das receitas com salários, prevendo-se em consequência, um estouro, mais adiante, que poderá arrebentar o projeto político de muitos governantes. A inadimplência de pequenas empresas e pessoas físicas chega a índices absurdos, crescendo em 35% o número de prestações em atraso, no mês de julho. E agora tentam eternizar a CPMF, tornando um imposto que era provisório em permanente. É o Brasil do casuismo. A modernidade tão apregoada pela administração tucana é uma quimera. Se seu símbolo for o celular, pouco funciona em São Paulo. Se forem os correios, a coisa já era. Os serviços estão ruins. Se for fita pornô em banca de revista - produto de importação - o avançado Governo henriquista estampa a mais colorida metáfora de decadência moral de nossa história.
A indignação aumenta quando se depara com o discurso prontinho, cheio de lábia, que procura nos colocar na vanguarda da redenção econômica e social. A imagem de um conto infantil de Ruth Rocha cabe como a mão na luva: o rei passa no meio da multidão, aplaudido pela galera, enquanto tapumes, imensos out-doors de modernidade, procuram tapar a sujeira que existe por trás da passarela. O rei procura esconder, a todo custo, a imagem tétrica de um monumental esqueleto público. Como toque final da obra de ficção, o rei decreta que está tudo às mil maravilhas.


