Gaudêncio Torquato
A convocação extraordinária do Congresso, feita pelo Executivo, está contribuindo para corroer ainda mais a imagem dos parlamentares, mesmo que os resultados auferidos até o presente sejam muito significativos. Afinal de contas, a Câmara Federal aprovou o polêmico projeto da Desvinculação dos Recursos da União (DRU), de grande interesse do governo, que passa a ter domínio maior do orçamento; as linhas básicas da reforma do Judiciário; a Lei da Responsabilidade Fiscal, que seguramente se insere entre os mais avançados passos para a modernização institucional; e a importante agência de águas, entre outros projetos. Por que, então, a crítica sobre os parlamentares é tão ácida?
Primeiro, porque a tuba de ressonância da mídia, que infla o balão da opinião pública, tem provocado a inevitável comparação entre o cidadão comum e o parlamentar. As pessoas, com muita razão, tendem a se perguntar: se o trabalhador tem apenas um mês de férias, por ano, por que deputados e senadores haveriam de aumentar seu tempo de lazer? Não deveriam, dessa forma, trabalhar normalmente em janeiro e fevereiro, já que dispõem de um mês de férias em julho? Por que são convocados para fazer um trabalho extra, ganhando proventos extraordinários? Esse é o primeiro elo da cadeia química da indignação. A reação da população tem sua razão de ser. Afinal de contas, é o povo que paga o salário do político.
O segundo motivo da indignação abrange o tamanho da semana de trabalho do parlamentar. Ocorre que as segundas e sextas, pela nossa cultura política, são dedicadas às atividades nas bases políticas. Ou pelo menos deveriam estar à disposição dos eleitores. Um bom político precisa ouvir as demandas e sentir os anseios das comunidades. Mas esse trabalho, como não tem rosto, não é contado. Ao contrário, as saídas de Brasília, nas quintas, são interpretadas como final de semana prolongado. E a mídia alimenta a fogueira.
Mesmo sabendo que há representantes que degradam a imagem do Parlamento, há de se reconhecer que atacar político faz parte da estratégia do denuncismo da mídia e favorece a banda do negativismo que a imprensa faz questão de cultuar. Não adianta dizer que contato com as bases também faz parte da missão parlamentar. Para o povo, deputado e senador têm de trabalhar em Brasília.
Da mesma forma, trabalhador é o parlamentar que está em Plenário. A importante atividade nas comissões – fundamental para o ajuste, o acerto e o atendimento às verdadeiras demandas sociais – é pouco considerado. A mídia, mais uma vez, erra ao avaliar os resultados positivos do Congresso pela quantidade de leis aprovadas, como se aquela instituição pudesse ser comparada a uma fábrica de latas ou de carros, cuja eficácia se mede pelo número de unidades produzidas.
Pouco adianta ser racional na análise da performance do Congresso. A decisão de se dar oficialmente um mês de férias aos parlamentares, com os dias de recesso para as festividades de final de ano, é uma boa solução para atenuar sua imagem negativa. (Um lembrete: a Assembléia francesa suspende por 42 dias seus trabalhos entre o final de dezembro e o final de abril, com semanas de trabalho intercaladas).
Há que se entender, por fim, o espírito que rege a imprensa. O errado sempre ganhará mais espaço que o correto; as coisas positivas são consideradas pelos gestores, editores e repórteres como fatos normais e previsíveis. Logo, não constituem notícia. Se há dois fatos da mesma intensidade, um positivo e outro negativo, o segundo prevalecerá. Assim, as disfunções na política econômica, as contratações nas funções públicas, as denúncias, os escândalos e, mais recentemente, a elevação às alturas de regiões glúteas, pinceladas por formas arredondadas no malho das academias, fazem o prato predileto da mídia. (Aliás, há quem garanta que não está distante o tempo em que as mulheres já não mais serão conhecidas pelo belo rosto).
As mazelas da política, a fragilidade dos governos, a violência generalizada, a inépcia dos governantes, a banalização religiosa, a musicalidade brega de padres e pastores só são comparáveis ao culto da cosmética dourada do verão. É o espírito do tempo.

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