O espírito do Natal
Natal é festa do Menino Jesus. O máximo se fez mínimo. O poderoso se fez frágil. O tudo se fez nada. O forte se fez menino. O altíssimo se fez carne. O rei repousa na manjedoura. O onipotente está envolto em faixas. O santo está no imundo tornou-se mundano. O eterno está no tempo. O invisível está na criança. O infinito mora na estrebaria. O senhor está na periferia. O criador se fez criatura. O divino é humano, mundano.
Mandamentos do Natal cristão. Não trocar o Menino pelo velho barbudo. Não fazer do Natal um feriado apenas. Preparar o presépio em casa e no coração. Participar da novena e das celebrações. Dar ao Menino Jesus, como presente de Natal: os nossos pecados. Exercer a hospitalidade, a amabilidade, a fraternidade. Imitar Maria e Jesus, os pastores e os magos na sua fé. Fazer mais silêncio e diminuir a correria; mais oração, menos comércio; mais Deus, menos mercado. Encantar as crianças a atraí-las ao Menino Jesus. Renascer, recomeçar, restaurar a vida a partir de Jesus Cristo.
Não havia lugar para Jesus. Hoje, não há lugar para Deus na modernidade. Ele é supérfluo, inútil, embaraçoso. Não há casa para todos. A crise habitacional desafio é para os sem-teto. Não há lugar para a criança no útero, é abortada. Não há terra paara todos, o latifúndio é concentrador. Não há lugar para os migrantes, são deportados. Não há lugar para os pobres: são excluídos. Não há lugar no centro, aumentam as periferias. Não há lugar para o velho, é descartado. Não há lugar para o negro, é discriminado. Não há lugar para os doentes nas instituições de saúde, morrem esperando vagas. Não há lugar para a vida, a depredação do meio ambiente gera morte. Não há lugar para os palestinos, os índios, os estrangeiros, os pobres e outros.
Luzes do natal. Jesus é a luz, a estrela, o centro do Natal. Nem Papai Noel, nem as luzes das vitrines deveriam substituir o Menino Jesus. Natal é para a gente se reencantar por Jesus, deixando-se tocar pelo amor de Deus manifestado no Salvador nascido em Belém. A luz do amor: Jesus está no presépio porque nos ama, veio ao nosso encontro, trouxe-nos a proximidade, a amizade, a intimidade de Deus. Ele executa o plano eterno de salvação na plenitude dos tempos. Ele é o centro, o sentido, a chave da história. A luz da encarnação. Jesus é da nossa raça, nosso familiar, nosso consanguíneo, é osso de nossos ossos, carne de nossa carne. Não podemos viver um cristianismo desencarnado, alienado, intimista. Jesus dignificou o corpo humano. Quem toca na carne de um pobre, doente, excluído, toca na carne sofredora de Jesus. Não há Jesus sem carne e sem cruz.
A luz da descida de Deus até nós. Ele se autolimitou, esvaziou-se de sua glória e fez-se óvulo no corpo de uma jovem. Fez-se embrião. Coube num berço. Nasceu fora de casa, numa estrebaria porque não havia lugar na hospedaria. Fez-se pequeno, pobre, frágil. Precisou de leite materno e de faixas. Ficou escondido 30 anos em Nazaré. Eis o que fez o amor do Pai por nós. Outra luz é a do reencantamento por Jesus Cristo. Ele é a esperança dos pobres, justiça dos oprimidos, pão dos famintos, libertador dos prisioneiros. Desde Belém Jesus abre os olhos dos cegos, endireita os encurvados, protege os estrangeiros, sustenta órfãos e viúvas, acolhe os pecadores. Jesus é a esperança da humanidade. Quem segue Jesus, torna-se mais humano e chega à maturidade da sabedoria, encontra a luz da vida.
Para conservar o "espírito do Natal" é auspicioso que: ao rezar não te esqueças antes de perdoar e ter reta consciência. Confesses teus pecados. Não comentes discórdias. Evites toda murmuração e silencies a lamentação. Odeies toda simulação, sejas sempre verdadeiro. Não te exaltes a ti mesmo, sejas humilde em tudo. Não procures a glória e não te entregues à arrogância. Acusa-te a ti mesmo. Ames o próximo mais que tua vida. Não te unas aos soberbos, sê amigo dos humildes. Tudo o que te acontecer, recebas como um bem. Nada de duplicidade e inconsistência. Feliz Natal com Jesus, Maria e José.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
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