O Espírito de Londrina
O Espírito de Londrina
Walmor Macarini
Nada amedronta o norte-paranaense. Nem sexta-feira 13 e nem lobisomen, nem mula-sem-cabeça nem uivar de lobo (que nunca se ouviu por aqui mas tem gente que jura que escutou), nem maldição de urubu gordo sobre cavalo magro, nem praga rogada e nem despacho de sete encruzilhadas, nem murmúrio de alma penada nem sapo de boca amarrada, nem papagaio vencido nem vento encanado.
Mas de geada, todo mundo tem medo.
O norte-paranaense não aprendeu a lidar com a geada. Não tem intimidade com ela. É uma coisa que ele não administra bem. Desde as primeiras que aqui chegaram, logo se viu que não eram hóspedes bem-vindas. Geada nunca deu clima. Só aquele clima frio... Sempre envolvido em a máxima frieza.
Uma geada não se pode abrigar com aconchego. Ela chega açoitando tudo. É amedrontadora. Manifesta seu ponto culminante no amanhecer do dia, para que todos agonizem seus estragos e a vejam triunfar soberana aos primeiros raios de sol.
Geadas já tivemos tantas. Estas madrugadas que vivemos foram o campo fértil para que elas espalhassem o seu vírus.
Há precisamente 25 anos, nestes dias 17, 18, 19 de julho, chegou aquela que dizimaria todos os cafeeiros. Muitos se lembram. Vivíamos os tempos de uma praga denominada ferrugem do cafeeiro, uma ameaça. Transcorrida a geada, um desconsolado cafeicultor, exibindo no hoje Calçadão galhos de seus cafés esturricados, proferiria a frase patética: Bem, estamos livres da ferrugem...
Muitos choraram naqueles dias. O Norte do Paraná não seria mais o mesmo. Os cafeeiros desapareceram, tanto que cinco anos depois os escolares eram levados a conhecer pés de café num plantio ornamental feito no canteiro central da avenida que leva ao Aeroporto.
A Pedra, ali na Avenida Rio de Janeiro, onde se realizavam os negócios de café, perdeu o seu sentido. Os homens com suas latinhas de amostras perderam a própria identidade. Habituados àquelas práticas, eles queriam vender o que não mais havia, e vagavam como baratas tontas. Alguns morreram de inanição e de nostalgia. Eram vistos falando línguas estranhas, murmuravam palavras ininteligíveis, pareciam seres de uma civilização perdida.
Máquinas e tulhas de café ficaram silentes. O prédio do Edifício América, que abrigava o Centro do Comércio de Café, que se conectava com o Rio e com Nova York, era o templo de resplandescência do poder mas foi murchando e perdeu o brilho; parecia diluir-se como casa de chocolate e desmoronava-se ante o olhar atônito dos fiéis remanescentes. Alguns tentavam agarrar-se ao que supunham ainda restar, mas nada mais restara daquilo que havia sido o sonho. As pessoas se perguntavam o que havia acontecido, mas ninguém sabia responder. De repente, tudo o que tinham estava perdido.
Ninguém mais plantou café. Desiludidos, muitos foram embora e deles não se teve mais notícia. Seria o fim da cafeicultura, ao menos segundo aqueles padrões, mas padrões que fizeram crescer cidades e implantaram aqui um modelo de civilização como não se conheceria outra igual.
Tristes momentos, tristes dias.
Um novo modelo agrícola se implantaria no Norte do Paraná. Londrina, Capital Mundial do Café, jogou numa lixeira da história esse troféu. Nunca mais ninguém o reivindicou. Com ele se foram as fadas madrinhas, e Rainhas do Café nunca mais! Não mais as catadeiras de café, que eram denominadas pianistas do IBC, porque tocavam seus dedos com habilidade magistral, sobre as peneiras.
Os dias tristes desta semana, no Calçadão de Londrina, trouxeram, à memória de muitos, amargas lembranças.
Mas, o que aconteceria? Que Londrina era mais resistente que as geadas. E do seio da terra um grito ecoou, como um uivar contínuo e insistente de algo que emergia e parecia desafiar o caos. Todos o ouviam e não o identificavam em lugar nenhum, mas o ouviam.
Era o Espírito de Londrina!
E eis que agora começamos a ouvi-lo de novo. Ele sempre vem depois das geadas. Parece que tem com ela um pacto, um estigma de afronta. Seu uivar contínuo não permite que ninguém caia em sonolência, e todos vão reaprumando os corpos e pondo-se de novo em pé.
Ele sempre chega depois dos dias tenebrosos de inverno.
E quando nem percebemos, ele já refez a casa e refez esperanças.
É o Espírito de Londrina.
Se buscarmos vê-lo, nós o veremos a cada alvorecer, sempre do lado do nascente. É visto a cada raiar de um novo dia!
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





