O Brasil entrará no ano eleitoral de 98 sob um falso dilema: a eleição do presidente e dos governadores está sendo considerada uma questão de vida ou morte, de salvação ou condenação da sociedade. Os situacionistas trabalharão com a idéia de que o país precisa incorporar o espírito de Adriano, imperador talentoso, estadista e erudito; os oposicionistas serão embalados pelo complexo de Messias, que é a ilusão de que podemos todos nos salvar bastando, para tanto, que mudemos o homem que está no topo. Nada mais falso. A crise brasileira não é de liderança, mas de obsoletismo institucional. Não precisamos de nenhum Maomé, Mao-Tse-Tung, Ghandi ou Kennedy, de ninguém que possa encarnar o mito da eficiência autoritária. Precisamos, sim, e urgente, de uma reforma profunda na estrutura das instituições.
As cobranças que se fazem à falta de renovação de lideranças estão contaminadas por um saudosismo apocalíptico. Os órfãos de Getúlio e Juscelino ou os saudosistas de grandes tribunos do Parlamento, como Aliomar Baleeiro, Carlos Lacerda, Adauto Lúcio Cardoso e Fernando Ferrari, esquecem que a sociedade, na época, não tinha o grau de complexidade do nosso tempo. Estamos, agora, na sociedade tecnetrônica, mistura da tecnologia e da eletrônica, bem diferente dos ciclos agrário e industrial. A política, hoje, é desmassificada. Os meios de comunicação, interativos, aumentam os graus de crítica e racionalidade. A sociedade brasileira se organiza em pequenos grupos, que mudam constantemente de posição. O eleitorado se fracciona, grupal e regionalmente. O consenso entra em colapso e as decisões se repartem. Os nossos líderes perdem poder para as estruturas das quais dependem, exibindo uma crescente fragilidade.
Alvin Toffler, ao concluir que as elites não podem mais predizer os resultados de suas próprias ações, sintetiza o fenômeno, lembrando a confissão de um alto funcionário da Casa Branca, que se queixava do fato de o ‘‘presidente dos Estados Unidos se sentir gritando ao telefone, sem ninguém na outra extremidade’’. Não estamos longe, no Brasil, de viver a mesma coisa. Basta radiografar o estofo intelectual e político do presidente da República. Quem dentre esses nomes - Lula, Ciro, Tarso Genro, Sepúlveda Pertence, Brizola, Quércia, Sarney, Itamar, Maluf, Covas, Requião, Enéas, Arraes, Roberto Freire - é mais preparado que ele? No entanto, sabemos que ele erra e muito. Vastos espaços da área social - saúde, segurança, educação - estão devastados. Teríamos condições melhores se fosse outro o presidente?
Ora, a crise é institucional. Para começar, o presidente manda fazer e as coisas não acontecem. Quando acontecem, são empurradas pela lentidão. A maquinaria política destrói a coerência conceitual dos programas. O poder de mando se reparte entre as bases aliadas. Basta ver o que está ocorrendo com a disputa por mais espaços entre PSDB, PFL e PMDB. A malha invisível, que age nos porões, esconde a corrupção. O paralelismo operacional cria compartimentos e conflitos. A estagnação adormece a burocracia. E os discursos se despolitizam, tornando-se peças do balcão do fisiologismo. Os nossos problemas não se ligam, portanto, à eleição de nomes de esquerda, direita, de líderes fortes ou fracos, de governantes autoritários ou complacentes. Os furos não estão nas pessoas mas nas instituições.
Não adianta querermos eleger um piloto de supersônico, se ele vai ter à disposição instrumentos de navegação semelhantes aos que Santos Dumont usava no 14-Bis. E o que se pode fazer? Mudar, urgentemente, a cara e o corpo das estruturas. A começar pela política. O nosso sistema político exala o odor doentio das capitanias hereditárias. As reformas que estão em curso - administrativa, previdenciária, tributária - são cosméticas. Equivalem a mais uma camada de pintura sobre a massa velha e carcomida da parede. Decência, honestidade, disciplina, fidelidade e ética são palavras do dicionário utópico brasileiro. Nem complexo de Messias nem espírito de Adriano. O Brasil carece de vontade política para mudar as estruturas.

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