O espaço do geógrafo
O curso de Geografia da Unioeste, câmpus de Marechal Cândido Rondon, que se encontra no segundo ano de funcionamento, chama atenção para a data de 29 de maio, quando se comemora o Dia do Geógrafo, o que remete a algumas reflexões sobre o trabalho do geógrafo num mundo globalizado e em permanente transformação. Num momento em que a obtenção de um certificado de curso superior por si só não garante mais efetivamente um emprego, quais seriam as possibilidades que se vislumbram ao geógrafo?
O curso de Geografia, quando implantado, levou em conta uma demanda de professores formados na área e que atuam predominantemente no ensino médio e fundamental. Porém, é evidente que esta não constitui a única opção de atuação do geógrafo. Embora entendendo que exista um verdadeiro espaço profissional a ser construído, o geógrafo, no desenvolvimento do seu curso, adquire habilidades que o qualificam a exercer as mais diversas assessorias de planejamento urbano e agrário. Encontra igualmente espaço em atividades de cartografia geográfica, mapeamento de regiões e trabalhos laboratoriais de impacto de meio ambiente.
O Oeste do Paraná se apresenta como espaço preferencial de pesquisas ao estudante de Geografia, pelas suas características peculiares. Nos elementos dessas realidades aparece, destacadamente, o impacto gerado pela ocupação do meio, seja pela modernização agrícola ou pela construção de hidrelétricas como a de Itaipu, por exemplo, onde a idéia da ‘‘Costa-Oeste’’ se personifica no processo de reterritorialização mais visível relacionado aos novos conceitos da ciência geográfica.
Um curso de Geografia, neste final de século, traz inquestionavelmente preocupações diferenciadas do que se pensava e era objeto de discussões há menos de 30 anos, quando o mundo ainda vivia os temores da ‘‘guerra fria’’ e apenas esboçava o que se materializaria a partir dos anos 90. Os temas ou conceitos em geografia não deixaram de existir, mas as perspectivas, como hoje se observam ou se discutem estes temas, têm se alterado significativamente, a ponto de surpreender os ‘‘geógrafos’’ mais antigos e menos avisados. A ciência geográfica segue uma tendência que se verifica em outros campos da ciência, ou seja: o constante questionamento de velhos paradigmas e a permanente construção de novos.
Em se tratando do espaço do geógrafo, acredito ser oportuno relembrar alguns fragmentos da conferência proferida por Milton Santos durante a aula inaugural do curso proferida em abril de 1997. Destaca ele que a geografia tradicional teria poucas chances diante de um mundo pseudoglobalizado, porém que haveria uma geografia que muito pode contribuir para interpretar e pensar principalmente o mundo menos desenvolvido.
Pensar uma globalização que possa ser construída com laços de solidariedade, seja numa dimensão local ou universal, eis aí um bom desafio para o curso de Geografia que dá seus primeiros passos. Se a vida do homem é uma luta, o trabalho do geógrafo é um combate, conclui o professor. Um combate desafiador na construção do novo, que possa tranformar-se em dignidade para o ser humano.
- TARCÍSIO VANDERLINDE é docente integrante do Departamento de Geografia da Unioeste.

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