O escárnio global - José Antonio Pedriali
O escárnio global
José Antonio Pedriali
O lendário John Kennedy teve inúmeras amantes, além de Marilyn Monroe, e morreu como herói. A morte precoce iluminou sua aura de estadista e reforçou seu carisma. O mais popular de todos os presidentes norte-americanos deste século foi um adúltero, e como tal era reconhecido pelas pessoas bem informadas de sua época. Jamais seus adversários mais ferrenhos, entre eles o conservador Richard Nixon, por ele derrotado, ousariam pensar em expor publicamente os devaneios sexuais de um presidente dominado por uma libido incontrolável.
A exposição pública da conduta imprópria de Bill Clinton com a estagiária gorducha da Casa Branca Monica Lewinsky se assemelha a um conto de Kafka. Eis que na manhã de segunda-feira, 21 de setembro de 1998, o homem mais poderoso do mundo viu-se transformado em inseto, e como inseto foi mostrado a todo o mundo globalizado. Detalhes íntimos, como o uso incomum de um charuto, toques, beijos e afagos são expostos sem censura, sem perdão, sem misericórdia. O senhor esteve a sós com ela no Salão Oval? O que fizeram quando estavam a sós? Houve isso, houve aquilo? Por que o senhor, no depoimento anterior, não admitiu ter se relacionado sexualmente com a senhorita Monica Lewinsky?
O homem mais poderoso da mais poderosa nação do mundo converteu-se na primeira vítima do escárnio global. Todos pudemos acompanhar pela televisão os gestos, as palavras, os movimentos dos músculos faciais, o balbucio, o suor que lhe escorria pelo rosto, a expressão de desespero, de perplexidade que os olhos de Clinton não puderam conter no histórico depoimento ao Grande Júri. Depoimento que era para ser reservado, pois se tratava da conduta particular de um homem na condição de presidente dos Estados Unidos, mas que por motivos políticos - e outra explicação não encontramos para tal - foi escancarado para quem quisesse assistir, de Washington a Kuala Lumpur, Lhasa, Tóquio, Bagdá, Xambrê e Uagadugu.
Bill Clinton é um adúltero, usou o Salão Oval - local venerado pelos norte-americanos - como alcova, mentiu sobre seu relacionamento com a gorduchinha (que já está mais magrinha e em breve deverá estar posando para a Playboy...), sim, fez tudo isto. Mas isto justificaria a humilhação a que ele e sua família estão sendo submetidos?
Um presidente, seja ele de que país for, não pode mentir. Se for norte-americano, e se assim proceder, estará ferindo a Constituição, que não admite o perjúrio. Ele mentiu, é verdade, mas quem no lugar dele não tentaria ocultar um relacionamento adúltero e mantê-lo oculto até as últimas consequências? Quantos presidentes norte-americanos foram submetidos, como Clinton, a uma investigação tão minuciosa pelo simples fato de ter mentido?
A história dos Estados Unidos registra a ocorrência de processos contra os chefes de Estado, a começar por Thomas Jefferson, o Pai da Nação, culminando com o escândalo Watergate sob o qual sucumbiria Nixon. Mas nenhum foi tratado como um inseto como Bill Clinton, nenhum precisou escancarar tanto sua personalidade quanto Bill Clinton, nenhum se expôs de maneira tão humilhante quanto Bill Clinton.
O paradoxo do escárnio global, e outra vez o cenário lembra Kafka, é que o mesmo Bill Clinton foi pisoteado diante da nação e do mundo e simultaneamente aplaudido, de pé, na sede das Nações Unidas pelos chefes de Estado e de governo presentes à Assembléia Geral.
O contraste se explica: diante do agravamento da crise financeira e econômica mundial, vários líderes - entre eles o nosso presidente Fernando Henrique Cardoso - cobram uma atitude da comunidade internacional para que se criem mecanismos de defesa das economias locais. O atual modelo econômico está em jogo e colocado sob suspeição, teme-se que afundemos mais e que o fantasma da Grande Depressão de 1929 ressuscite. É preciso um esforço global para se encontrar o fim do túnel, como vem pregando o primeiro-ministro britânico Tony Blair. E todo esforço global exige ser conduzido por um líder e, queiramos ou não, este líder é o presidente dos Estados Unidos, único país capaz de fornecer os meios para essa cruzada do fim do milênio, e esta função é hoje exercida por Bill Clinton.
Talvez nem Kafka fosse capaz de conceber um cenário tão lúgubre. Ou, como disse o editorialista do jornal japonês Nihon Keizai Shimbun, os Estados Unidos ficaram loucos?
PS: Nenhum presidente pode mentir. Mas quem chegaria a este posto dizendo a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade?
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha em Londrina





