Nem mesmo os dois terríveis atentados que destruíram as embaixadas norte-americanas nas capitais do Quênia e de Tanzânia, na África, causando a morte de quase trezentas pessoas, ferimentos em cerca de 5 mil e deixando um rastro de destruição, dor e medo nos locais e em todo o mundo, foram suficientes para diminuir o enfoque principal da imprensa e do povo, nos Estados Unidos e no resto do planeta, do escândalo que envolve o presidente Bill Clinton. Assim como já havia ocorrido durante os traumáticos tempos de Watergate, quando todos os assuntos internos e externos dos Estados Unidos foram postos de lado, enquanto se levava o então presidente Richard Nixon a uma renúncia ignominiosa, agora também os assuntos de Estado ficam em plano secundário enquanto um vestido de mulher, com manchas suspeitas, passa a ser mais importante que a descoberta dos responsáveis pelo terrorismo que voltou a se fazer presente, na África e também na Irlanda do Norte, com o atentado de sábado, que matou 28 pessoas em pleno processo de pacificação nacional.
O escândalo protagonizado pelo presidente da maior potência do mundo é, sem dúvida, daqueles que chamam a atenção, devido ao conceito de que os que são chamados a dirigir os povos devem não apenas ser competentes, honestos, sérios, mas também necessitam ter atitudes pessoais ilibadas. Isto lembra um pouco a antiga máxima romana que dizia que ‘‘a mulher de César não apenas deve ser honesta, mas também precisa parecer honesta’’, significando que a pessoa pública tem uma imagem que precisa ser preservada, em todos os sentidos. Entretanto, é imperioso que se tente aprofundar não apenas este tipo de exigência (que, em certo sentido, pode ser compreensível) mas também salientar que, por vezes, o foco excessivo sobre questões pessoais de um mandatário pode prejudicar os interesses de seus governados.
A vida íntima de um governante é assunto pessoal ou é do interesse nacional? Pessoas públicas podem ou não ter vida privada? Estas questões, e muitas outras correlatas, estão sendo discutidas há tempos. E é certo que, na medida em que os órgãos de comunicação se tornam cada vez mais presentes na vida das pessoas, tem aumentado esta mistura que faz com que qualquer pessoa que tenha algum destaque se torne, também, foco de uma atenção que pode, até, em casos extremos, acabar com sua vida, literalmente. Está ainda presente na memória a tragédia da princesa Diana, que de tão pressionada, de tão cercada, acabou morrendo num estúpido acidente, há quase um ano.
Naturalmente, a posição de presidente dos Estados Unidos é mais destacada que a de uma ex-esposa do príncipe herdeiro da coroa britânica. E é certo também que questões sexuais envolvendo um líder político podem ter conotações mais sérias, inclusive envolvendo favores que ficam muito perto da corrupção. Naturalmente, nesta linha de raciocínio, a preocupação com certas atitudes do presidente norte-americano parece ser justificada. Todavia, ante o quadro que se descortina, o imenso circo que vem sendo preparado e que culmina hoje, com o depoimento de Clinton ante um Grande Júri (o que jamais aconteceu na história norte-americana), dá a impressão de ir muito além do próprio interesse público. Ademais, a reação do povo, observada em numerosas pesquisas, evidencia que o eventual escorregão sexual do presidente não parece tão importante para os que o elegeram.
O mais grave, porém, é quando questões desse naipe acabam produzindo efeitos correlatos, de consequências imprevisíveis. Sob a ameaça de ter sua vida íntima exposta ao público, sendo talvez obrigado a passar o tempo a defender o mandato, o presidente dos EUA pode acabar impotente face às obrigações de governo, o que pode prejudicar a situação do país, interna e externamente.

mockup