Há quase cinquenta anos, recebemos uma fazenda de 90 alqueires. Mais tarde, por herança, incorporamos mais 55, perfazendo um total de 145 alqueires.
Durante esse meio século, investimos na propriedade, destocando-a, valeteando os banhados, calando e adubando a terra e, acima de tudo, preservando uma mata nativa, de aproximadamente 50 alqueires, enquadrada pelo Instituto Ambiental do Paraná como um patrimônio ecológico particular.
Levamos a energia elétrica para a fazenda e às propriedades vizinhas, perfuramos um poço semi-artesiano e canalizamos água potável para todo o imóvel. Fomos pioneiros na instalação de telefonia monocanal. Informatizamos os controles e procuramos modernizar a exploração das atividades agropecuárias. Construímos um patrimônio para que pudéssemos desfrutá-lo economicamente no seu devido tempo.
Tudo aconteceu conforme o previsto. Em 1996 decidimos direcionar as atividades para o campo agrícola. Aliviamos os pastos e investimos firme no plantio de mandioca em parceria com uma fábrica de fécula instalada na região. Inicialmente plantamos 40 alqueires para colher com 18 meses, proporcionando um faturamento estimado em R$ 250.000. Mais 40 alqueires seriam incorporados, elevando o faturamento, somente com a mandioca, para uns R$ 500.000, no ano de 1999.
Quando o plantio atingia seis meses de vida, ou seja, no dia 31 de dezembro de 1996, a propriedade foi invadida e esbulhada por quadrilheiros, denominados sem-terra. Obtivemos a imediata reintegração de posse, muito embora entendendo que o caso seria da polícia, não da justiça.
A reintegração jamais foi cumprida pois contou com a tolerância do governo do Estado, em completo desrespeito à decisão judicial.
Como não estávamos na propriedade no dia 31 de dezembro porque tínhamos uma reunião de Natal e Ano Novo com a família, os quadrilheiros aproveitaram a ausência para se apossar da terra e da atividade comercial: montaram suas tendas furtando material da propriedade; puxaram para cada barraco um ponto de luz; usam e abusam da água, que somente flui com uso de energia paga pela fazenda.
Intimaram os empreiteiros a colher prematuramente a mandioca, sob a ameaça de se apropriarem da colheita. O mesmo fizeram com o campeiro, exigindo a retirada imediata de todo o gado para que eles pudessem plantar e arrendar as terras.
Numa demonstração de ousadia, caçam animais silvestres, sejam macacos, coatis, cotias, cervos etc; abatem o gado da fazenda e depredam o plantio de mandioca. Todos esses fatos estão registrados na delegacia de polícia de Querência do Norte, no ‘‘livro de queixas’’, e no Instituto Ambiental do Paraná, em Paranavaí.
Completados nove meses da invasão, com a cumplicidade do governo do Estado, não sabemos mais o que fazer, porque este não deve ser o prêmio a quem trabalhou 50 anos neste Estado e foi agraciado com a cidadania honorária paranaense.
A imprensa e os meios de comunicação, políticos, empresários e algumas associações têm falado dos sem-terra com alguma tolerância. Se não forem arcaicos bolchevistas com a pretensão de desestabilizar o país, deveriam ser tratados como cúmplices desses bandidos.
Os que estão confortavelmente sentados em boas poltronas nas capitais, quando ligam no programa de um Jô Soares ou lêem uma notícia, mesmo em jornais de respeito, se penalizam com os problemas dos sem-terra. É porque esse público nunca foi a uma propriedade rural ocupada por quadrilheiros, onde seria recebido por uma horda de foras-da-lei ostentando facões e foices, num gesto de intimidação aos proprietários e à polícia, quando acompanhados por ela (isso aconteceu conosco).
Esse não deve ser, também, o Brasil que conhecemos... Se o Incra quiser a terra para uma finalidade social, mais importante, que desaproprie pagando o preço justo ou, pelo menos, depositando o que entenda o que ela vale, para ser discutida na justiça a diferença, se for o caso.
Enquanto isso não acontece, compete ao Estado do Paraná assegurar o direito de propriedade em sintonia com o Poder Judiciário e dispensar proteção aos cidadãos que escolheram este Estado com ânimo de permanecer.

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