O equívoco ecológico
Luciana Ribeiro Lepri Moreira
A sensibilidade ecológica tem conhecido, ao longo dos últimos anos, um desenvolvimento espetacular. Enquanto, há apenas 20 anos, ela parecia ser apenas apanágio daqueles que eram rotulados como ‘‘eco-xiitas’’, em razão do radicalismo, hoje em dia toda a gente, ou quase, declara-se ecologista. Ou, pelo menos, pronta a levar, finalmente, a sério a questão da proteção da natureza, transformada em ‘‘patrimônio comum’’ da humanidade.
Trata-se de um fenômeno mundial, mas particularmente impressionante entre os ocidentais, convencidos da ameaça das catástrofes ecológicas, persuadidos dos perigos que pesam sobre o Planeta e preocupados com o mundo que deixarão às gerações futuras. Fruto de correntes de opinião já antigas e de conversões tão súbitas quanto tardias, o consenso ecológico passa a dizer respeito a largas frações da população.
Os políticos decidem que é importante ‘‘pensar verde’’, os cientistas proteger a Terra, os industriais vender bons produtos, os consumidores modificar os seus comportamentos, e os habitantes das cidades e dos campos defender a sua qualidade de vida.
Este unanimismo, no entanto, é ambíguo, e é evidente que nem todos têm a mesma idéia de natureza. Será que podemos dizer que os amigos de belos passeios pelo campo partilham da sensibilidade ecológica? Ou eles apenas expressam sintomas de isolamento característico dos indivíduos da vida moderna?
Será que podemos qualificar como ecológica a prática da ‘‘moto-verde?’’. Que abriria caminhos rurais a novos adeptos do esporte chamado ecológico? Será que podemos qualificar de ecológica a exploração, mesmo que ordenada, de ecossistemas que terão seu equilíbrio alterado pela intervenção humana, a título de propiciar às pessoas momentos agradáveis de lazer? Será que podemos qualificar de ecologicamente correta uma empresa certificada com a ISO 14.000? É consenso, no entanto, que todos procuram rotular seus produtos e seus empreendimentos com o chamado ‘‘selo verde’’.
A sensibilidade ecológica, hoje, transformou-se num veículo de novas formas de consumo, de tecnologias ditas apropriadas, de uma renovação espiritual ou de uma vontade de manter a diversidade dos meios naturais e das culturas. A procura urgente de novas relações entre o indivíduo e o Planeta pode, deste modo, tomar mil e uma formas, e esta variedade é responsável pela atual vitalidade da ecologia que hoje está em toda parte. Assim, a sensibilidade ecológica transformou-se em um verdadeiro saco-sem-fundo que os indivíduos alimentam ao seu bel-prazer.
Se for verdade que, para cada um de nós, ecologia rima com natureza, não é menos claro que nem toda gente está de acordo acerca da natureza da ecologia.
Disso é testemunha o fato de ser possível, ainda hoje, na semana de comemoração do meio ambiente em pleno ano 2000, fazer um balanço perfeitamente contraditório do atual estado de avanço da consciência ecológica: 1) No domínio internacional, o imperativo ecológico traduz-se pela organização de múltiplas conferências e pela existência de programas científicos e tomada de decisões que não surgem em conformidade com as necessidades econômicas, decisões estas que, para os países pobres representam um luxo reservado às nações mais ricas; 2) A criação das ONGs marca um grande progresso na consciência ecológica, mas também podemos constatar que seus combates ficam restritos a uma determinada região, com peso insuficiente face ao poderio econômico ou à lógica das políticas públicas; 3) Em matéria econômica, a proteção do ambiente agora é levada em conta e fez nascer novos mercados; todavia, em nível mundial ela ainda não conduziu a uma grande modificação nas práticas produtivas e na elaboração das políticas públicas; 4) No campo jurídico, as regulamentações nacionais e internacionais viram-se consideravelmente reforçadas, mas a lei ambiental ainda é incapaz de tornar efetivos os objetivos ecológicos e de desenvolver um estatuto jurídico da natureza.
Assim, baseados nesta multiplicidade de comportamentos, corremos o risco de achar que a ‘‘maionese ecológica’’ está quase no ponto, pois estes diferentes entendimentos da ecologia tornam seu futuro particularmente incerto entre a
gestão e a política, entre a ciência e a cultura.
Mais profundamente podemos pensar que todas estas ambiguidades, todos estes paradoxos se reduzem a um equívoco maior: o de pensar que a ecologia está entre o céu e a terra. No meio de toda essa bagunça ecológica, no entanto, duas questões ficam encobertas com demasiada frequência, e que condicionam o pensamento ecológico desde a sua origem e determinam o seu futuro: 1) A definição das necessidades; 2) E a relação com a terra.
Não seria necessário, à semelhança dos antropólogos que se debruçaram sobre a organização das sociedades selvagens, requestionar a noção de ‘‘necessidade’’? E tentar encontrar, entre a austeridade voluntária, cara aos ecologistas radicais dos anos 60 e 70, e a ideologia do consumo, que parece continuar o seu inexorável progresso, uma redefinição contemporânea, ecológica e política das ‘‘necessidades’’?
- LUCIANA RIBEIRO LEPRI MOREIRA é promotora de Justiça da Promotoria Especial de Proteção ao Meio Ambiente em Londrina

mockup