O ensino vagabundo
O ensino vagabundo
Fernando José Dias da Silva
A história da vagabundagem até que foi boa. Anda uma disputa danada para saber quem é, e quem não é vagabundo entre o pessoal da cobertura. É verdade que a declaração de Fernando Henrique - dizendo que são vagabundos aqueles que se aposentam antes dos 50 anos - deixou meio irritados os que estão no andar térreo.
Outra discussão que surgiu com a história é se Fernando Henrique perde votos. São 13 milhões de aposentados. Três milhões só dos que começaram a receber aposentadoria antes dos 50. Um número que pode ser entendido como pequeno diante dos 101 milhões de eleitores brasileiros. O problema é que sempre há a mãe, o pai, o marido, a mulher, os filhos os amigos que votam juntos com o vagabundo.
É uma discussão que está se tornando meio bizantina, essa da vagabundagem. O presidente Fernando Henrique não deve se preocupar com meia dúzia de vagabundos. Só não deve pronunciar a palavra. Talvez em francês o impacto teria sido atenuado. Está parecendo a polêmica que está agitando os meios culturais: os parentes do namorado da Xuxa são ou não são bonitos?
Assuntos menores que os vagabundos do presidente e a suposta feiura da família Szafir são o fim do ensino gratuito nas universidades federais e o fim da universalização da saúde. São bobagens, ninguém está prestando atenção nessas coisas, mas esses assuntos estão sendo discutidos pelo governo para entrar como matéria de uma reforma fiscal.
Uma beleza. Privatizando as universidades e a saúde, o governo pretende acabar com o déficit nas contas públicas, para evitar que as despesas do setor público fiquem acima da arrecadação. E dessa forma eles conseguem. Só falta arrematarem com uma lei complementar estipulando que o vagabundo que não pode pagar os seus estudos e nem as suas doenças tem por obrigação desaparecer, sumir no vácuo, não existir mais como ser humano: é a moda. A mão invisível do mercado vai regular tudo. E todos serão felizes porque a idéia do bem público, do Estado regulador, já era.
Sem querer ser fracassomaníaco, é interessante lembrar aqui de alguns dados para refrescar a memória daqueles que acham que nós devemos copiar os Estados Unidos de forma hiper-realista. Não é que a expansão da criminalidade, no nosso Grande Irmão do Norte, cresceu justamente no período do corte dos gastos sociais, da privatização de serviços essenciais, da revogação da proteção trabalhista e da deslegalização dos mais variados direitos promovidos pelos governo Reagan e Bush.
No seu livro, Crime e Punição na América, Elliot Currie diz que nos anos 70 as prisões norte-americanas tinham 200 mil presos. No ano passado, elas abrigavam 1,7 milhão de pessoas, além dos 3,8 milhões em liberdade condicional. Uma proporção sete vezes maior à da Europa Ocidental, tão criticada por seu modelo de bem-estar social e suas leis trabalhistas protecionistas. O Texas, com 18 milhões de habitantes, tem o mesmo número de presos da Alemanha com seus 80 milhões de habitantes. O Estado norte-americano, hoje em dia, gasta mais com polícia e a construção de cadeias do que com educação e saúde.
O fim do ensino gratuito nas universidades e da privatização da saúde ainda não chegou ao presidente. Está na fase de elocubrações entre os vários setores da equipe econômica. Está na área dos tecnocratas. Com relação às universidades ainda existe alguma discussão. Tem gente que acha que só entra rico nessas universidades. Por isso elas deveriam ser pagas. O reitor da USP, Jaques Marcovitch, entretanto, acha que nem se todos os alunos fossem filhos do sultão de Brunei a universidade poderia prescindir das verbas do Estado. Além da universidade - como diz o próprio nome - tratar do saber na sua totalidade, o que seria impossível se ela fosse privatizada e tivesse que atender às demandas da produção, às demandas do mercado. Com relação à privatização da saúde, trata-se de um caso de maldade mesmo.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





