Lemos na Folha (12/3): “Educação vai recolher livro infantil com ‘conteúdo sensível’”. No dia seguinte, foi publicada a matéria: “Educação sexual nas escolas volta ao debate após o recolhimento de livro infantil”, para a qual contribuí como entrevistada. O assunto girou em torno do fato de que uma profissional, de determinada escola municipal de Londrina, denunciou à Secretaria Municipal de Educação a existência do seguinte livro: “O bebê vem com a cegonha?!?”, da editora Melhoramentos. A autora é Patrícia Engel Secco e o ano de publicação é 2003. A Secretaria mandou retirar a obra de todas as bibliotecas das escolas municipais. Da mesma forma, a editora cancelou a reedição da obra; não tenho conhecimento se essa decisão aconteceu antes ou após os fatos narrados. Lamentável os três fatos.

O livro O bebê vem com a cegonha?!? é de boa qualidade, apresenta vários momentos de humor saudável e é escrito em uma linguagem atraente. As páginas são de cores variadas e vivas e trazem dados cientificamente corretos. A escrita denota que a mãe fala de forma amável e clara com o filho. A relação entre ambos é positiva e Pedro demonstra confiar na mãe e a vê como uma pessoa sábia. Sua mãe está disposta a falar a verdade, sem ludibriar, sem “enrolar”, como fizeram a tia, depois a avó e depois o tio. É um livro indicado para crianças acima de seis anos. É importante que seja lido com a criança, a não ser que ela tenha mais idade. Mesmo assim, é bom conversar com a criança, verificar o que ela entendeu e ouvir o que pensa. É importante a afirmação da autora de que “os bebês são feitos por homens e mulheres crescidos e que crianças não fazem bebê.”

Na obra, contudo, há alguns pontos limitadores, mas que dão espaço _ e isso é bom _ para conversas com as crianças. Primeiro: quando a autora afirma que meninos gostam de futebol e meninas de boneca. Segundo, quando diz que “... para a família ficar completa...” “Falta um bebê, ou dois, ou três, ou um montão”, responde o menino a seguir. Samuel Pfrom Neto, foi professor do Instituto de Psicologia da USP, e defende que “mesmo com um livro ruim podemos fazer um bom trabalho”. Não que o livro aqui comentado seja ruim por causa desses pontos. Porém, não é válido afirmar que meninos gostam de futebol e meninas de boneca e que a família só é completa depois que o casal tem filho/a.

Então o/a educador/a poderia conversar sobre essas e outras questões com a criança, levando-a a aprender que se pode discordar de um autor, que é importante pensar, refletir sobre o que se lê. Seria muito proveitoso se a conversa sobre o livro acontecesse em sala de aula e todas as crianças pudessem expressar o que sentem e o que pensam. Necessitamos de professores/as com visão positiva da sexualidade e que tenham consciência de que o trabalho consiste em ensinar a pensar e não a doutrinar.

Daí a urgência dos Órgãos responsáveis pela Educação prepararem os professores para lidar positivamente com esse assunto. O tempo urge. Infelizmente, as consequências de não se conversar abertamente, na família e na escola, são muitas e, fortemente negativas. Somos corresponsáveis, pais, mães e educadores/as, pela forma como nossos/as adolescentes e jovens vivem e viverão a vida sexual e os relacionamentos familiares. Se não assumirmos essa tarefa, as novas mídias o farão, de maneira perigosa, promíscua e sem se importar com a saúde mental e física dos adolescentes, como já estão fazendo. Muitos educadores, por falta de conhecimento sólido, no que diz respeito ao ensino da sexualidade, estão paralisados diante dos discursos ultraconservadores e, pior, estão liderando o retrocesso. É muito triste! Continuemos a ser responsáveis pela formação integral e não apenas intelectual de nossas crianças e adolescentes.

É provado cientificamente que as crianças ingênuas são mais vulneráveis ao abuso sexual. São seguramente menos vulneráveis as que têm boas e seguras explicações sobre como se proteger dessa violência, sobre de onde vêm os bebês e todos os outros conhecimentos que dizem respeito ao corpo. Vamos juntos respeitar a inteligência da criança e o seu direito ao conhecimento.

Mary Neide Damico Figueiró, psicóloga, doutora em educação e professora do departamento de psicologia da Universidade Estadual de Londrina

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