Ricardo Israel
No último dia 16, o Chile teve pela primeira vez em sua história um segundo turno. Foi, na verdade, uma segunda eleição que Ricardo Lagos, candidato da governante Concertación pela Democracia, ganhou com 51,31% dos votos, contra 48,69% de Joaquín Lavín, da direitista Aliança pelo Chile.
Estes resultados, que ampliam a pequena margem de vantagem que o candidato da Concertación obteve sobre Lavín no primeiro turno de 12 de dezembro, demonstram que a forma com que Lagos enfrentou esta segunda etapa foi bem-sucedida. Sua mudança de imagem, sua maior proximidade com o povo e sua forma de falar mais didática e compreensível tiveram eco.
A pergunta agora é que tipo de governo vai dirigir o socialista Lagos. O seu será o terceiro governo da Consertación, precedido pelo de Patricio Aylwin Aylim (1990-94) e o de Eduardo Frei (1994-2000), ambos democrata-cristãos. Lagos é o líder da corrente socialista dessa coalizão, integrada pelo Partido pela Democracia, Partido Socialista e Partido Radical, além do Partido da Democracia Cristã (PDC), que é o maior agrupamento da Concertación.
A resposta surgirá de uma frase enigmática que Lagos usou em 12 de dezembro, quando disse que havia ‘‘entendido a mensagem do povo’’. Não está claro o que quis dizer. Só quando assumir a Presidência os chilenos poderão comprovar se aquelas palavras se referiam ou não a uma notória diferença com os governos prévios da Concertación e a uma mudança relevante de nomes e figuras.
A maioria obtida por Lagos é clara, mas, ao mesmo tempo, suficientemente escassa para que, em seu governo, ele se preocupe em solucionar os temas sociais que a cidadania colocou sobre a agenda para os próximos seis anos: saúde, educação, combate à delinquência e emprego. O grande desafio histórico será, então, como deslocar o progresso de um país que duplicou sua renda em dez anos para um que mantém a mesma distribuição de renda que na década de 60.
Virão duas eleições gerais seguidas, as municipais em outubro deste ano e as parlamentares em dezembro de 2001. É fato que o povo vai exigir que o próximo governante cumpra as promessas que foram feitas na área da igualdade de oportunidades.
Lagos é obviamente um grande vitorioso e deve se sentir muito contente, já que em sua vida política conheceu o fracasso muitas vezes, mas em cada uma dessas oportunidades aprendeu com suas derrotas. Ele também aprendeu com o que ocorreu no primeiro turno, quando obteve uma ínfima vantagem sobre Lavín, pois a grande explicação para o triunfo do dia 16 está exatamente no mesmo setor que provocou o segundo turno: o voto feminino. Além de qualquer outra análise, os 2,7% de diferença que Lagos obteve correspondem quase exatamente à recuperação dos votos femininos que lhe foram adversos em 12 de dezembro.
E aí esteve também o grande acerto desta segunda campanha: centrar-se na moderação e na busca do voto feminino e democrata-cristão. Se existe um líder natural é na oposição, já que, apesar de sua derrota, o desempenho de Lavín deve ser qualificado como notável. Lavín é o presidente lógico para a próxima disputa.
O grande tema, contudo, é o das expectativas criadas por estas eleições. Os chilenos têm direito de esperar um novo estilo de gestão que se concentre na solução dos problemas sociais. A grande quantidade de promessas que foram feitas durante a campanha serão cobradas pelo povo nas eleições que se aproximam.
Cabe perguntar, neste cenário, se vai mudar o sistema de partidos como consequência da eleição. Nada dramático deve ocorrer enquanto não mudar o atual sistema eleitoral binominal, o que obriga as forças a se aliar e manter dois blocos. De fato, a DC ressurge como a força primordial.
Em suma, um triunfo esforçado, justo. Um povo pacífico que deu uma lição de maturidade cívica. Um aparato estatal que entregou oportunamente os resultados, e um voto feminino que foi decisivo para forçar o segundo turno e cuja mudança explica por si só o triunfo de Lagos.