O enigma da Defesa - Rubem Azevedo Lima
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de janeiro de 1999
Rubem Azevedo Lima 
A proposta do presidente Fernando Henrique Cardoso de criação do Ministério da Defesa e indicação de um civil para dirigi-lo contém sementes de complicações, embora tal assunto, a rigor, seja irrelevante, dadas as dificuldades atuais dos brasileiros. O indicado para chefiar a Defesa, senador Élcio Álvares, é um político de boas maneiras, a quem o eleitorado capixaba impôs, no entanto, estrondosa derrota nas eleições de outubro de 1998. Pelos primeiros comentários feitos por ele, antes de assumir o ministério, seu insucesso eleitoral não pareceu totalmente imerecido.
Élcio fez alarde - assim, aliás, denominava-se o momento medieval em que os peões apresentavam suas armas ao suserano - de um insuspeitado sentimento militarista. E isso não soou bem, pois o Brasil não lamenta o fim das trevas da idade média do AI-5, após trinta anos de regime militar. A última coisa que se gostaria de ver foi o que Élcio fez: em posição de combate, o elmo emplumado, a viseira baixa e teso na armadura de flandres (feita na região com o mesmo nome e não de ferro estanhado), brandir sua durindana e descê-la, estranhamente, contra a intenção de aparente civilismo de FHC.
Ao considerar os militares uma categoria à parte e, por seus méritos, digna de vantagens e benefícios justos, mas que são negados há quatro anos ao funcionalismo civil e seus dependentes, o ministro - político, civil e aposentado, tribos malvistas hoje - forneceu, ele próprio, argumentos contra a criação do novo ministério. Se os militares, a seu ver, pairam acima dos brasileiros sem farda, por que, então, pô-los sob o comando de um paisano, que, além do mais, sequer prestou serviço militar, segundo a imprensa? Ou ele, na melhor hipótese, edulcorou sua pílula militarista, para agradar aos futuros comandados e tranquilizá-los, pois a caserna continuará dando as cartas na política militar do País (e até na civil, em certas ocasiões), quanto mais no ministério?
Os militares têm motivos para preocupar-se. Em primeiro lugar, porque passaram a constituir o que a burocracia oficial chama de carreira de Estado, no instante em que o Estado brasileiro, por imposição do fundamentalismo neoliberal, está sendo aniquilado em termos de poder. Depois, as Forças Armadas destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa destes, da lei e da ordem. Como, porém, cumprir tal dever, satisfatoriamente, se a cizânia está subjacente na concepção do novo ministro, para quem a Nação se divide entre brasileiros que merecem remuneração condigna e o resto, que, com exceção das minorias influentes, é apenas o resto? Cônscios das pressões estrangeiras violentas, em favor da redução do papel que têm na defesa do País, os militares receiam estar sendo jogados para cima, pelos elogios que os transformam em casta, e para baixo, pela realidade factual.
Nem carne, nem peixe, nesse assunto. Apesar das boas maneiras mas ruins palavras iniciais, Élcio faz lembrar o enigma da inscrição que dizem existir num mármore, em Bolonha, sobre um lendário protetor da cidade: Nec vir, nec mulier, nec androgynus... Nem homem, nem mulher, nem andrógino. De cada coisa um pouco. O que, visto pelo avesso, é a imperfeição em tudo. Não é o caso de Élcio, porém o Ministério da Defesa, por si só e sob sua chefia, não evitará que uma grave crise possa explodir o Brasil, como a Estação de Bolonha - apesar da proteção de outro mito - explodiu em 1982, pela conjunção de fatores externos e internos. O perigo é que a própria Defesa seja uma das espoletas detonadoras dessa crise.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


