O engenheiro da legalidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de junho de 2004
Renan Calheiros 
Leonel de Moura Brizola soube, como poucos, construir o futuro do nosso País. Ele não precisou deixar a vida para entrar na história. Já tinha garantido seu lugar na seleta galeria dos líderes políticos carismáticos por sua extensa biografia de batalhador, de homem público compromissado com bandeiras como a da educação. Brizola foi um grande estadista, um trabalhista, um legalista, uma pessoa com fortes convicções democráticas. Sem ele, a história do Brasil teria sido outra. Suas memórias vão ficar para as gerações futuras como um exemplo de dignidade, de combatividade, de moralidade.
A formação política deste gaúcho adotado pelos cariocas era de um tempo em que prevalecia o Estado forte, a defesa das nossas instituições e das nossas empresas. Suas posições foram um importante contraponto na discussão em torno da globalização, do liberalismo excessivo, selvagem, sem fronteiras ou limites. Leonel Brizola fez política até o último momento da sua vida, coerente com suas idéias. Brasileiro, mais do que ninguém, pensava num País construído pelos brasileiros. Na economia, era de uma geração que viu a industrialização do Brasil sendo puxada por empreendimentos e viu o acerto da campanha ''O petróleo é nosso''. Foram suas convicções que o levaram a encampar a Companhia Telefônica Nacional, subsidiária de uma empresa internacional. Por isto, foi um adversário ferrenho da privatização e da abertura ao capital estrangeiro que resumia numa de suas famosas expressões: ''as perdas internacionais''.
Na política, Brizola foi pioneiro ainda não superado numa questão que só agora começa a ser encarada mais seriamente: a busca de uma representação política com diversidade. O PDT que Brizola fundou logo que retornou do exílio era multifacetado étnica e ideologicamente. Não era como tantos partidos formados exclusivamente por homens e brancos. Ele era uma referência para as esquerdas e um adversário respeitado pelos conservadores. No governo do Rio de Janeiro, elegeu como mais importante um ponto que é de fato um dos principais desafios do Brasil a educação de qualidade para os pobres. Os Cieps foram uma tentativa de construir boas escolas, sólidas e com espaço para esporte e lazer, que mantenham as crianças das áreas de periferia durante todo o dia em salas de aula. Essa preocupação tinha uma razão: ele mesmo fora uma criança pobre que chegou aonde chegou por acreditar na educação. Além disso, a cultura popular sempre mereceu sua atenção. Basta lembrar o Sambódromo...
Líderes são aqueles que em momentos decisivos ficam do lado certo, das instituições, das leis e da Constituição. Leonel de Moura Brizola entra para a história deixando ao País este legado: em qualquer situação, por maior que seja a crise, o caminho é sempre o da legalidade. Ele deixa uma marca de patriotismo, de amor sem dúvida ao Brasil. Foi um exemplo daquilo que nós mais precisamos: seriedade e honestidade na coisa pública. Ao lado de Tancredo, de Ulysses, de Teotônio, de Jango, Brizola vai se juntar à galeria dos que mudaram os rumos do Brasil.
RENAN CALHEIROS é líder do PMDB no Senado e ex-ministro da Justiça
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