O empresário não pode tudo
Walmor Macarini
Lemos neste jornal o desabafo do cartunista Ziraldo, que vai ter que fechar sua revista cultural ‘‘Palavra’’, por falta de anunciantes. Não é novidade, no Brasil, veículos de comunicação fecharem pelo mesmo motivo. Tem suas razões o maior cartunista brasileiro de todos os tempos, pai do Menino Maluquinho, mas o que diz chama a atenção pelo seu enfoque equivocado quanto aos culpados. Ele atribui o fim de sua revista ‘‘ao descaso do empresariado brasileiro’’.
Bem, o empresário não pode tudo, mas a maioria das pessoas pensa que sim. Sobretudo quem não é e nunca foi empresário. A verdade é que, com exceção dos bancos e das empresas estatais, o empresário brasileiro é o que menos pode. Ele nunca pôde, porque foi sempre castigado pelos governos.
É um equívoco pensar que o empresário pode patrocinar tudo.
Basta que se pense numa campanha de arrecadação, e o primeiro segmento solicitado a ajudar é a empresa. Quando o time de futebol vai mal, o primeiro mecenas que chega à lembrança é o empresário. Se é preciso patrocinar a apresentação artística, o chapéu mendicante visita primeiro o dono da indústria e da loja. Se a Igreja quer ajuda, busca primeiro os fiéis empresários. Assim com a creche, se falta dinheiro. Se um atleta precisa habilitar-se a uma competição, procura primeiro o patrocínio dos donos de empresas. Como se ali estivesse a mina de ouro.
Ziraldo diz que ‘‘nenhum patrocinador compreendeu que seu anúncio na revista não era para obter retorno financeiro, mas para investir na cultura do País’’. E cita o exemplo dos Estados Unidos, onde os milionários é que implantam os museus, as bibliotecas, as grandes instituições culturais.
Só para começar, ocorre que nos Estados Unidos o governo é americano. Aqui o governo é brasileiro... Lá, o governo e os bancos contribuem para o desenvolvimento, têm os empresários como aliados e grandes parceiros nas causas de salvação da pátria, protegem-nos e os respeitam, como agentes do desenvolvimento que são. Lá, o governo e as instituições financeiras são patriotas. Aqui, os governos e essas instituições são os sugadores da Pátria, conspiram contra o empresário, solapam sua riqueza, destroem seus ideais, fazem tudo para afundá-lo na inadimplência, e se puderem lhe tomam tudo, ao invés de salvá-lo.
Antes de salvar a cultura, o empresário brasileiro precisa salvar sua própria empresa, salvar o faturamento do mês para garantir o salário dos empregados, salvar-se das garras do banco, que, operando em conluio com o governo, pouco se importa se tiver que tomar tudo do empresário inadimplente. Quem lê os editais de leilões, sobretudo dos bancos oficiais (entenda-se o governo), vê lá o sequestro da casa, do trator, da colheitadeira, enfim as garantias pessoais do produtor e suas ferramentas de trabalho.
O deputado Delfim Netto chama o governo de tiranossauro-rex e diz que é o governo que não quer a reforma fiscal, porque não quer perder receita, mas, ao contrário, engordar mais e mais os cofres da União. Ele escreve que o presidente diz querer a reforma, que ela é essencial para o crescimento dos investimentos, especialmente nos setores agrícola e de exportação, mas toda vez que o projeto avança na Câmara dos Deputados, o governo apresenta uma nova dificuldade, bloqueando a tramitação.
Este é o governo que temos, sempre conspirando contra a Nação, ao invés de contribuir para salvá-la.
Governo rico, nação pobre.
Não nos deixemos enganar: o governo é muito rico. Ou não sobraria tanto para a farra que faz.
E Ziraldo, em sua pureza e inocência, imagina que, com um governo destes que devora a classe empresarial com a voracidade de um tiranossauro-rex, ainda sobra algum dinheiro para o empresário patrocinar cultura. Com todo respeito por Ziraldo e pela cultura, o empresariado brasileiro está atado por mãos e pés, e o tiranossauro-rex ali, de dentes afiados para devorá-lo, e o faz sem piedade.
Diz o deputado que, no início do primeiro mandato do presidente, a carga tributária bruta era de cerca de 27% do PIB, e que hoje é de 32%. Um ‘‘aumentozinho’’ que resulta em R$ 50 bilhões anuais. Dinheiro bom que o governo tira do meio, retraindo o processo de desenvolvimento e empanturrando mais a pança do tiranossauro-rex.
Se todo o dinheiro está em poder do governo e dos bancos, não sobra nada para a cultura... Não sobra para a mendicante Nação brasileira, que precisa nutrir o bicho. É aí que Delfim entra com a comparação jurrássica: ‘‘O governo federal, através do fisco, transformou-se numa espécie de tiranossauro-rex.’’
E diz mais: que o empresário tem que ir ao banco tomar recursos a uma taxa de juros espantosa, para atender à fúria tributária do governo.
É tiranossauro-rex por todo lado.
Esta é a cultura do poder que nos domina, Ziraldo!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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