O Brasil está longe de ser uma Pátria, pelo menos quando confrontado com a expressão da solidariedade sentimental de uma raça, com a unidade em torno da utopia coletiva para a realização de grandes coisas. Um olhar, mesmo curto, para qualquer espaço da vida política e institucional, flagra a torpeza de atitudes, uma retórica de lucro, cortes bafejadas pelo servilismo e fisiologismo e uma administração intensamente povoada por intermediários, proxenetas que usam os desvãos do poder para engrossar um PIB informal de tal monta, que já se diz ser do tamanho do PIB formal, hoje em torno de R$ 1,3 trilhão. Um estado invisível se esconde no vasto território nacional, agregando bandidos que vêem nos sequestros forma mais racional e lucrativa; mascarados que fruem as sombras generosas das administrações públicas; e contingentes de pequenos e médios empresários que jogam fichas na sonegação para escapar da voracidade estatal responsável pela arrecadação em torno de 34% do PIB.
O País, é sabido, tem hoje uma moeda estável. Mas não basta a estabilidade monetária para se criar uma pátria. O Brasil se assemelha mais a uma empresa, cujos compromissos de receita e despesa, pagamento à banca internacional, ênfases no valor da moeda, exprimem não o espírito valorativo de sua gente mas a identidade mercantilista dos empórios. Não se pode negar que a condição primeira de um país para aspirar grandeza é o domínio inflacionário. Fernando Henrique, além deste trunfo, será também prestigiado pelo fato de ter inserido o País na mesa de negociações internacionais, graças às qualidades intelectuais e à visão abrangente dos problemas mundiais. A ele, porém, será cobrada a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento, que, como facho de luz, serviria para iluminar os caminhos da população, evitando o eclipse da desesperança, que é a tônica desses tempos de muita violência.
Na verdade, a administração elegeu o varejo para manejar os cintos político e macroeconômico. Em tudo, a moeda de troca é o interesse de a, b ou c. O País, como o povo, é um mero detalhe. Veja-se esse vai-e-vem do PFL. O governo negocia o afrouxamento em troco de voto. As demandas partidárias, os movimentos para derrubar a coligação vertical, o jogo das alianças e até as inserções publicitárias dos pré-candidatos têm como eixo motor a personalização do poder, ou seja, as vantagens ou desvantagens que as decisões e os discursos acarretam para os atores políticos. As idéias, ah, que sejam jogadas na cesta de lixo.
O setor produtivo amarga a ausência da tão propalada e aclamada reforma tributária. É a unanimidade nacional que não deu certo. Os juros altos funcionam como freio ao desenvolvimento. Os bancos brasileiros, que se locupletam de lucros fantásticos, oferecem apenas 27% de seus recursos aos tomadores, enquanto no vizinho Chile, por exemplo, esse índice é de mais de 60%. É explicável a razão pela qual os setores produtivos se recusam a fazer festa em ambiente de velório. Que a agricultura brasileira comemore com vivas a supercolheita de grãos, mas temos de dar graças a Deus pela terra fértil do nosso espaço e pelas chuvas que molham todas as regiões, afastando, até, o dragão do apagão.
Pouca coisa, porém, merece comemoração, entre elas o fato de alguns políticos desonestos terem sido banidos do Congresso Nacional, a organização social mais forte, por meio de entidades determinadas a controlar o exercício público, e a emergência de novos pólos de poder e controle, entre eles alguns (não todos) núcleos do Ministério Público menos voltados para os holofotes e mais preocupados em extirpar a metástese que se propaga no tecido nacional. Infelizmente, a política tem se degradado, deixando a característica de missão para se converter em profissão. Esta é uma distorção de nossa incipiente democracia.
Por todas essas razões, caberá ao futuro mandatário do País alicerçar as bases da sociedade com a única argamassa capaz de resgatar o sentimento coletivo de nacionalidade: o compromisso com o desenvolvimento social, que implica em aumentar a rede de proteção social, a partir da segurança pública. Um país não consegue ser pátria quando a renda per capita registra um aumento de apenas 1% ao ano. É o que temos visto em todos estes anos de governo comandado pelo mais preparado presidente de nossa história. Trata-se de uma contradição sem dúvida. Mas não adianta maquiar a verdade, como certos marqueteiros fazem com seus clientes, que mais parecem polichinelos. A lição popular ensina: some 10, 100, mil, todos os zeros, e não terás quantidade alguma. O Brasil de pequenas estatísticas positivas não é a pátria que queremos, menos ainda a Nação com que sonhamos.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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