O malfadado Estatuto do Trabalhador Rural, implantado há quase 40 anos, e a ausência de políticas governamentais adequadas para a agricultura, levariam ao êxodo rural, que criou sérios problemas urbanos, pelo inchaço das favelas e todas as consequências inerentes. Esses reflexos ainda ocorrem hoje, porque a inadequação da legislação trabalhista para o operário do campo desestimula contratações. Só nos últimos três anos 5 milhões de pessoas deixaram a atividade rural. Pelos números do Núcleo Agrário do PT partido que assume o governo federal em janeiro existem no Brasil 100 mil famílias de sem-terra acampadas, e o propósito é colocá-las imediatamente na cadeia de produção.
O Presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva tem anunciado que a reforma agrária está entre as suas prioridades, ademais para neutralizar a investida do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, agora um estorvo que o novo governo desejará ver fora de ação. O Núcleo Agrário faz contas e afirma que com R$ 2 bilhões o governo conseguirá assentar aquelas famílias. Os cálculos não pensam apenas o assentamento que representaria um custo de R$ 9 mil por família mas também o capital de giro inicial de outros R$ 9 mil ou pouco mais, para colocar a propriedade de cada família em processo produtivo. E naturalmente que apenas isso não basta, porque será preciso pensar os créditos futuros e, conforme a região, a estrutura de armazenamento e escoamento das safras, bem como os serviços de atendimento de saúde e educação.
O novo governo espera acasalar o projeto agrário com o da Fome Zero, para não deixar de fora essas famílias de assentados, no início necessitadas de assistência e que só se libertariam da fome a partir da segunda safra em suas propriedades. A intenção é dar início a esse programa já nos primeiros meses de governo. Segundo os números do Núcleo Agrário do PT e do coordenador nacional do MST, o Brasil possui 90 milhões de hectares de terras agricultáveis devolutas ou de latifúndios improdutivos, e o assentamento das 100 mil famílias exigirá apenas 2 milhões de hectares. Não há dúvida de que um programa dessa natureza é viável, sobretudo quando há vontade de levá-lo adiante, e a reforma agrária tem sido uma das obsessões do então candidato e agora Presidente eleito. Se Lula deseja fazer, ele o fará, e se agora, já com a autoridade de futuro governante, ele reforça esse propósito e coloca seus assessores a serviço da causa, é de se acreditar que o programa avançará e alcançará seu objetivo.

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