Luiz Geraldo MazzaO embotamento
próximo
Agora a polícia está na rua. Não tanto quanto propala o governo, mas bem mais visível do que antes. Já é alguma coisa. Banalizada como está, a violência em Curitiba, acredita a própria autoridade policial que pequenos assaltos a ônibus, por exemplo, são insignificantes e não contam estatisticamente. Tanto que há uma diferença brutal entre os números das vítimas, mais de 1.500, e os da polícia, menos de 300. E qual é a informação que o secretário de Segurança e o governador assimilam? A menos dolorosa, é claro. O que para um sistema de informação viciada, exagerada nos seus feitos, e reduzida, nas deficiências, é o suficiente. Só que de repente ‘‘pinta’’ um cadáver como aconteceu e aí o ‘‘stablishment’’ entra, como entrou, em pânico.
Mas foi pouco, poderia ser pior. Nos anos 50 tivemos algo bem maior do que os feitos de 68 em Curitiba (conflitos na Reitoria, no Centro Politécnico, os congressos clandestinos, a guerra na Chácara do Alemão) com a tão falada ‘‘guerra do pente’’. Uma explosão popular, que pode irromper a qualquer momento num ponto indeterminado deste país, diante das condições psicossociais ora existentes (a CUT levando desempregados aos pátios de supermercados, saques no nordeste, violências sucessivas no campo), tem tudo para gerar algo como um cenário de Jacarta. Como a sarna, é só começar.
Na guerra do pente houve uma discussão tola em loja de árabe da praça Tiradentes: o comprador queria a nota fiscal para concorrer ao ‘‘Seu talão vale um milhão’’ (inventado pelo Aníbal Khury) e que visava aumentar a arrecadação. O comerciante explicou que a nota era exigida a partir de 50 cruzeiros e que o pente custava apenas oito. Houve a discussão, pois o cliente era neurótico e o árabe o agrediu. Foi o estopim: a turba tomou conta das ruas e passou a depredar lojas de árabes. Uma guerra étnica, apesar da decantada assimilação dos paranaenses por todas as representações, cuja ‘‘Turquia’, que ficava em volta do Museu Paranaense, então sede da Prefeitura, já estava dividida com os israelenses assumindo cada vez mais espaços.
Alastrada a baderna por quase toda a cidade, a Polícia Militar não conseguia conter a desordem. Até que uma recepção na casa do milionário Caluf, que naquele dia festejava a sagração sacerdotal do padre Emir, seu filho, acabou visada pela plebe ensandecida. O carro do comandante da 5ª Região Militar foi atingido. O sinal valeu: o exército entrou na parada com blindados (aliás sucatas que levaram um gozador curitibano a perguntar a um oficial cujo tanque parara na esquina da Marechal Floriano com a rua XV se ele queria que o veículo fosse ‘‘empurrado’’) e depois de três dias a paz voltou.
Já folclorizada, mitificada, levada ao cinema pelo Palito, ‘‘a guerra do pente’’ está incubada no clima de hoje da Grande Curitiba. O crime tomou conta da cidade, apossou-se de tudo e conta com a omissão da polícia de um lado e com a ação de outro: um PM estava entre assaltantes no posto bancário do Hospital Nossa Senhora das Graças, o delegado Adauto entregou 35 policiais que estavam vinculados ou ao narcotráfico ou à extorsão, houve o flagrante dos afanos organizados dentro da delegacia de Furtos de Automóveis, mostras claras de que a malha criminal cruza com a supostamente legal nutrindo a anomia.
Melhorou, sim, mas não basta. Dentro em pouco volta a frouxidão. Tolerância zero o que é: impedir casos como o da Antitóxicos e da Furtos de Automóveis e tudo o mais, pois essa relação incestuosa se dá em quase todas as áreas. As concessões começam aparentemente inocentes, toleráveis, como a dos jogos e a dos costumes (tranco em cima de discotecas, motéis, casas de cômodos, boates, saunas) e acabam articuladas e abençoadas pelo crime organizado.
SILOGISMO Havia no Brasil o sabonete ‘‘Vale Quanto Pesa’’. Dá para imaginar a aplicação do conceito aos políticos paranaenses, ao pé da letra: se o peso da maior parte deles correspondesse a suas virtudes estaríamos numa boa.
EPIGRAMA Não é um absurdo, na sociedade liberada, os gays não terem cargos eletivos e quando o conseguem partirem para a dissimulação?
BIZARRICE O nosso homem na Conab, o Eugênio Stefanelo, já deu o alerta de que os estoques de alimentos vão acabar, especialmente os de primeira necessidade.
A âncora verde foi para o saco e importações serão necessárias. Com aquela voz de padre as suas intervenções têm tudo de Apocalipse, juízo final. Se derem corda para ele nos meios de comunicação, balança equilibra: a metade morre de ansiedade, a outra metade de fome. A paranóia pode instalar-se ao ponto de ninguém usar milho e feijão para marcar cartela de bingo e só um debilóide será capaz de lançar arroz numa noiva na saída da igreja.
AXIOMA 2 ‘‘O adultério é a democracia aplicada ao amor’’. Mencken, de novo.
TIGRES Primeiro o estouro das bolsas e agora a baderna nas ruas de Jacarta ajudam a desmistificar o ‘‘paraíso’’ que os neoliberais apontavam como um exemplo para o Brasil. Antes ocorrera o trauma do México, também badalado pelo coral da modernidade. Será que Mao-Tse-Tung não estava fazendo profecia ao referir-se ao capitalismo como um ‘‘tigre de papel’’ ?
AXIOMA 3 ‘‘Digam o que quiserem sobre os Dez Mandamentos, devemos nos dar por felizes por eles não passarem de dez.’’ Mencken, outra vez.
GLOSA Afinal por que falam tanto em sexo oral e nada se diz do sexo escrito?
FOLCLORE Sexta-feira o presidente Fernando Henrique estava iluminado ao explicar a questão previdenciária. Mas mal apareceu na televisão, o Lula já o imaginou a parodiar o Sarney com a frase ‘‘vagabundos e vagabundas’’.
CROMO ‘‘No ventre da lua sintética// Damka flutua// abana a cauda// irisada// de espinhos luminiscentes//’’ Cravei na secura da reportagem local sobre o sputnik com a cachorrinha Laika desta forma no ‘‘Diário do Paranᒒ essa minicolagem. Havia, é claro, mais brilho no satélite. E muito em nossos olhos.
AFORÍSTICO Oposição quer juntar todos com Lula para enfrentar FHC: pelo jeito querem perder a parada no primeiro turno em eleição plebiscitária.

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