O embate travado na Câmara Federal sobre as alterações na CLT merece uma reflexão profunda. Não tão propriamente a disputa entre os deputados quanto o comportamento da sociedade em relação ao assunto. Em Brasília, bem ou mal, aconteceu o debate entre os parlamentares e também manifestações de sindicalistas. Entretanto, considerando o significado da medida aprovada na Câmara, foi muito pouco.
Em qualquer outro país do mundo que tenha um mínimo de consciência política uma alteração dessa natureza teria ocasionado uma onda de protesto popular. Basta lembrar os episódios não muito antigos quando se tentou cassar direitos dos trabalhadores na França. Deflagrou-se greve geral.
Afinal de contas, as mudanças propostas na CLT envolvem conquistas centenárias dos trabalhadores de todo o mundo. Foi uma longa caminhada até se chegar a este patamar. A aceitação passiva das alterações representa uma capitulação sem resistência de lutas históricas travadas em décadas passadas.
O atual comportamento apático do trabalhador brasileiro tem relação com a concepção que ele hoje tem de si próprio. Imagem esta construída em grande parte pela mídia que determina os papéis a serem desempenhados por ele dentro do corpo social. Este pré-conceito delimita o seu existir no mundo e, igualmente, estabelece as fronteiras do que lhe é ''permitido'' fazer ou não na sociedade.
É comum se ouvir, por exemplo, que a política não é uma esfera na qual o trabalhador deva gravitar. Pois se trata de um mundo complexo para o qual um operário não está preparado, dizem. Seu papel se restringe simplesmente ao ato de votar quando chamado. E mais. Votar no candidato proposto pelo patrão. Em geral, o patrão por ter dinheiro e ser o dono dos meios de produção passa a impressão de ser mais instruído e com capacidade superior para distinguir quem apresenta a melhor proposta para a sociedade por ocasião de eleições.
Nos últimos tempos parece que a maior parte dos trabalhadores aceitou sem relutância essa condição. Porém, o resultado dessa conduta tem sido desastroso para a classe trabalhadora e é perfeitamente compreensível. Nunca vai dar certo colocar o gato para cuidar do peixe ou a vaca para atender a horta.
É mais ou menos isso que acontece quando o trabalhador vota no candidato apontado pelo patrão. Pois os interesses do patrão e do trabalhador são totalmente diferentes. Enquanto um busca, pela venda de seu trabalho, sobreviver e criar sua família, o outro encontra no lucro e no acúmulo de riquezas geradas pelo trabalho do operário a razão de sua vida. Logo, fica claro que os interesses são diversos e que uma mesma política não pode contentar interesses tão antagônicos.
Para que as coisas mudem e o trabalhador consiga sair dessa situação ele precisa tomar parte das decisões políticas que definem para onde a sociedade deva caminhar. Se na direção da satisfação cercada de luxo de uns poucos ou para atender as exigências de uma vida com dignidade da maioria.
A falta de mobilização popular por ocasião da venda da Copel, das mudanças na CLT e outras é um sinal de que a consciência política da população brasileira ainda continua dormente. É também um indicativo de que nas eleições de 2002 poderá se repetir a velha história de sempre: o operário apostando, de novo, no candidato do patrão.
Quem imagina isto ser impossível, deve se lembrar das campanhas passadas. Outro sinal foi dado nestes dias. Estão sendo trabalhados na mídia alguns substitutos dos que estão hoje no poder. Embora FHC e Lerner pareçam aos olhos da população absolutamente desacreditados, nomes como a de Rosana Sarney estão sendo cuidadosamente lapidados.
A incapacidade, por parte do trabalhador, de entender o jogo todo é a fórmula do sucesso dos poucos ricos em se manter no poder e impedir que as mudanças necessárias aconteçam. Sem conhecer como se dá a dominação, o trabalhador não participa e fica à espera de que tudo aconteça a partir das imagens e promessas detalhadamente trabalhadas pela mídia.
Hoje começam a produzir na telinha um misto de Madre Tereza com Mulher Maravilha. Entretanto, a população precisa entender que se esta senhora vir a ocupar a presidência da República, ou outros da mesma estirpe ideológica, não vai ocorrer nenhuma alteração no atual projeto político do País. Talvez algumas mudanças superficiais. Mas terá continuidade a cassação dos direitos como o que ocorreu na CLT, a privatização do que ainda resta em poder do Estado e a total subserviência do Brasil ao capital transnacional.


- PADRE ROQUE ZIMMERMANN é deputado federal do PT-PR

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