O elogio da bosta
Na antologia paranaense há um texto clássico de uma das figuras mais irreverentes dos anos 20 e 30: Elogio da Bosta do pastor evangélico e mestre universitário, professor de agronomia, Ernesto Luis de Oliveira. Ele o produziu em novembro de 1939 para responder a um editorialista do Diário da Tarde que estranhara o fato de ter usado o termo numa palestra em colônia de polacos na Lapa e o censurara.
O artigo publicado na Revista Prata de Casa, número 34, é um sarro: após gozar a malícia do crítico que se pareceria com os asnos que zurram quando avistam feno explicita as razões pelas quais falou em bosta porque seria incompreensível aos seus ouvintes os sinônimos dejecções, excrementos, fezes, estrume, titica e passa a argumentar que nada há de mais adequado do que bosta na boca de um professor de Agricultura, falando a camponeses estrangeiros e ensinando-lhes a transformar em adubo os excrementos dos animais? Ou acaso pensas que bosta, por ser bosta, para nada presta, ou que já seja adubo completo?
E segue na exposição: Sob pena de requeimar as plantas, antes de ser adubo, necessita a bosta de sofrer uma fermentação para que sob a ação das axoto-bactérias, se enriqueça de nitro e torne-se capaz de emulsionar-se. E vai por aí afora, misturando ciência e ironia: Para um cientista nada existe na mater Natureza que seja sujo ou vil... Quantas vezes não examina o sábio as fezes putrefatas dos seus doentes para firmar preciosos elementos de diagnóstico? Aqui mesmo, em Curitiba, não vimos os médicos examinarem as águas que se distribuía à população e o que foi que acharam nela?
UNIVERSO Por essa causa e com muita propriedade chamavam os latinos ao Universo Mudus- que quer dizer o puro. Porque no entender dos antigos, a pureza constitui a alma, a essência de tudo quanto existe. E na verdade a impureza, a maldade, só existe na alma dos ímpios e dos ignorantes. Chamaram-lhe os gregos - Cosmos - que quer dizer o belo. Porque no sentir daquela raça de artistas, tudo o que existe na natureza torna-se belo quando visto por um espírito de eleição. E Leonardo da Vinci acrescentou mais especificadamente: um troço de bosta, pintado com perspectiva, é belo!
Depois dessa gozação atribuída ao gênio italiano, prossegue: Queres ver? É a bosta um elemento fétido, sujo, vil. Seja! Seja tudo o que de ruim quiseres! Mas repara bem. É com esse elemento que o raio do Sol, Divino Artista, fabrica as delicadas pétalas de rosa, diante da qual te extasias maravilhado. É com esse mesmo elemento que fabrica os mil variados perfumes sutis com que te delitas. É ainda com ele que fabrica o louro grão de trigo que te alimenta, que te sustenta. Não comas o que de bosta se faz e uma horrenda ser-te-á castigo da impiedade. Lá no fim do artigo o peractum est do gladiador: Quanto a mim eu te perdoo o me haveres querido achincalhar no exercício de um nobre sacerdócio. E perdoo-te ainda porque, com a máxima certeza, estás convencidíssimo de que, se te abrissem o ventre, havia de tresandar em sândalo. Asno!
Simplório, em reuniões de cátedra da Universidade ou batendo papo na rua, vestia à sua moda: culote de abas largas, botas de cano alto, túnica fechada e chapelão de abas caídas. E assim o fazia em aristocráticos salões e ao pregar o Evangelho na Igreja Presbiteriana. Engajou-se na Revolução Federalista em favor dos maragatos e precisou refugiar-se na Argentina, desempenhando funções no Museu de História Natural. Com a anistia, retornou ao Brasil e formou-se também em engenharia civil, passando a viver em Campinas e São Paulo, em que obteve a cátedra. Foi em Campinas que replicou o criminalista italiano Enrico Ferri, da Escola Positiva, por seu óbvio determinismo que contestou como livre arbitrista. Polemizou também com o teólogo católico Leonel Franca.
Seu maior orgulho era declarar-se pai do Luisinho, atacante da seleção de 38, meia do São Paulo, que ficou em terceiro lugar no mundial. Negação da pompa e da solenidade, faleceu no Rio em 1938.
AS FIGURAS O Paraná cultua mal as suas figuras fortes, é ruim de memória. O texto de Ernesto Luis de Oliveira, lá pelos anos setenta, empolgou jovens como Manoel Karam, Nelson Padrela, em palestra que fiz a respeito a servidores da área de comunicação na prefeitura de Curitiba. A linha de irreverência é bem do espírito que viera com a Semana de Arte Moderna de São Paulo e igualmente a forma de conduzir uma polêmica.
Do meu tempo, isso é dos anos 50 a 80, em que me envolvi na área pública, pude conviver com figuras excepcionais. Vamos a algumas delas, fora o Newton Freire-Maia, grande referência da genética humana, que Minas mandou para cá, o filósofo Ernâni Reichmann, maior conhecedor da filosofia de Kierkgard, talvez em toda a América do Sul; Ubaldo Puppi, assistente do filósofo Jacques Maritain com seus estudos de antropofilosofia; Eduardo José Daros (volta e meia aparece na coluna do leitor desta Folha), assistente do filósofo marxista norte-americano Paul Baran e que diriu o IPEA, Instituto de Pesquisas e Economia Aplicada e hoje entregue à tarefa idealista e quixotesca, no melhor dos sentidos, como defensor do pedestre no Brasil, que é algo bem mais duro do que enfrentar moinhos de vento.
É por lembrar dessas vivências que insisto numa sugestão, bem prática, e o faço com regularidade, a todos os governos paranaenses para que busquem criar um Núcleo de Estudos Estratégicos e no qual identifiquem nossos recursos humanos, os daqui e os de fora, em todas as áreas de conhecimento. Quando Lerner inventou a tal da Universidade das Américas, virtual e que parece ter morrido na casca, sugeri que se convocasse o coronel Cavagnari, chefe do Núcleo de Estudos da Unicamp, parnanguara, para nos falar de Logística e Geopolítica, logo ele que antecipou no interior da Escola Superior de Guerra e que fulminaria o fundamento doutrinal daquela instituição com a nova ordem que tiraria o sentido da guerra fria que a respaldava, o que acabou levando-o também à prisão. Uma das boas decisões de Lerner foi convocar o Fausto Castilho, cientista político da Unicamp e Usp, para a universidade virtual. Fausto, do norte pioneiro, craque em filosofia, assombrou Curitiba nos anos 50 com suas palestras sobre Hegel e Heidegger e que assessorava o coronel Paula Soares na UDN e foi um dos melhores gestores da nossa Biblioteca Pública.





