O eleitor é sujeito da história
O eleitor é sujeito da história
Paulo Augusto
Na construção diária da sua própria história, o cidadão/eleitor/contribuinte, assim como o tecelão, vai fabricando com todo o cuidado e paixão o tecido da vida social com os fios da sua própria realidade. Uma realidade que, ao final, ele constata, é fabricada também pelas suas próprias mãos, por seus atos, já que somos, cada um de nós, responsáveis pela rua em que vivemos, o bairro, a cidade e o País que temos. Longe de insistir em transferir responsabilidades, deveremos banir de nossa rotina o hábito de culpar apenas os governantes pelos problemas que verificamos no País, no Estado e no município, esperando que as soluções partam de cima.
Neste momento que precede as eleições, é também hora de reconhecermos nossa parte na construção dessa realidade, como elementos ativos e indispensáveis, mesmo levando em conta nossa passividade e acomodação. Por vivermos décadas de populismo e clientelismo, forjamos para nós mesmo um imaginário subalterno, para o qual tudo que chega é lucro, e não resposta a um padrão de cidadania que deveríamos estar defendendo ao longo do tempo.
Chegamos ao cúmulo de criar uma cultura política que rejeita o serviço público como um campo qualificado e comprometido com a satisfação de nossas necessidades. De um lado, permitimos que não haja um compromisso dos governantes com a atenção e o respeito aos direitos da cidadania. De outro, embarcamos na tendência em desculpar ou desprezar o que é produzido pelo Estado, passando a ver as ações governamentais como circunstanciais, sendo resultado mais da bondade do governante do que do seu reconhecimento da dignidade do cidadão. Enfim, somos também culpados nessa relação cúmplice, que transforma tudo em ajuda e todos em esmoleres.
De qualquer maneira, é hora de ficarmos atentos para os picaretas que pululam na arena política, retirando-os de cena e abatendo suas aventuras com golpes de cidadania: tanto os novos e trêfegos em busca de uma boquinha na vida pública, como aqueles cascas grossas que já estão na vida pública há décadas, como parasitas e animais pedradores dos interesses da coletividade.
Nesse sentido, vejamos alguns itens que podem incluir-se no Manual do Candidato Pobre, aquele que aspira servir à sociedade, sem os interesses danosos do salve-se quem puder. Um documento que circula no interior do Rio Grande do Norte adverte: Os ricos, os que acham que são ricos e aqueles que vivem de puxar o saco dos ricos em troca de alguma migalha e outros lacaios dos que estão no poder procuram de toda forma rebaixar e desmoralizar o pobre que quer participar da política. Agora, quando se aproxima a eleição, é preciso ter cuidado com esses tipos e suas ações prejudiciais à luta do povo trabalhador. Veja o que eles dizem e como eles agem: Na verdade, política é coisa suja, todo político é igual e eu não gosto de política.
Só que ele vive atrás dos candidatos para conseguir qualquer benefício. Este gosta sempre de vender o voto a alto preço. Basta! Espie mesmo! Fulano não tem um passarinho pra tratar e quer ser candidato! No dia da eleição, pode ter certeza que ele vai votar num candidato que lhe deu alguma coisa. Este, pode ter certeza, troca o voto até por um confeito. Rapaz, deixa isso pra lá, deixe esse negócio de política que você não vai mudar o mundo mesmo! Só que ele está doido que um candidato venha à sua casa para comprar seu voto.
Esse negócio de política é para quem pode! O que diz assim é porque em toda eleição ele vende seu voto para algum candidato. Muitas vezes ele vende seu voto para quatro ou cinco candidatos. Você vai entrar nesse negócio de política, fique sabendo que a corda arrebenta do lado mais fraco! Este vive torcendo para que você se dane. Ele vive rondando a casa dos políticos ricos, atrás de alguma migalha.
Como eu sou seu amigo, vou aconselhar você que não entre nessa de política! Esse negócio de política é pra quem não presta. Este diz isso pra você, mas vai justamente votar nos políticos que não prestam, nos corruptos, nos que compram votos. É, você é até um bom candidato, mas você não tem voto. Este diz isso para justificar o voto que vai vender. Quando ele diz em você não voto, está querendo dizer que você não tem dinheiro para comprar o voto dele. Eu vou anular meu voto e só voto porque sou obrigado, pois eu não gosto de política. Estes até que não são dos piores, mas são uns inocentes, pois serão governados por quem gosta de política, por quem gosta de dinheiro, por quem gosta de boa vida, por quem gosta de roubar o dinheiro do governo (do povo) e não gosta nem um pouquinho dele e dos demais trabalhadores.
Este ano só vou votar em quem me der alguma coisa. Estes também são analfabetos políticos. Não sabem que as migalhas que recebem em troca do voto vão ser cobradas com juros e correção.
- PAULO AUGUSTO é jornalista em Brasília





