Passados os primeiros 20 dias do programa eleitoral no rádio e na TV, surge a constatação: a enganação continua em alta. Em qualquer capital, dá para se observar que os narizes de Pinóquio crescem exageradamente. Vejamos a campanha na maior capital do Brasil. O candidato Romeu Tuma promete perfurar 100 mil poços para resolver o problema da água. Significa 100 poços furados diariamente, tirando-se os fins de semana e feriados dos quatro anos de mandato. Promete, ainda, um programa de saúde que daria direito a qualquer cidadão usar qualquer hospital, a qualquer hora, tudo de graça. Dinheiro para fazer tudo isso, ele não explica de onde vai tirar. Logo, estamos diante de duas formidáveis mentiras.
Maluf promete paz celestial, acabar com a criminalidade, prisão pérpetua para os bandidos, dar saúde a todos, regularizar 600 mil lotes (isso mesmo), coisas que já prometera em campanhas anteriores e não cumpriu. O eleitor está acreditando nessas promessas? Claro que não. Como, então, reage o eleitor diante da programação eleitoral? Depende do tipo de eleitor. Se for um fanático eleitor do candidato mentiroso, faz que não ouviu. Registra apenas a imagem do candidato na tela, não seu discurso. Se for um eleitor crítico e consciente, indigna-se contra a mentira deslavada. Mas a média eleitoral tende a ouvir as promessas com ceticismo e desconfiança.
Determinados grupos de eleitores escolhem previamente seus candidatos, independente das propostas de campanha. Fazem parte de um clube fechado. Sabem que seu candidato pode ser mentiroso, arrogante, prepotente, incapaz, inexperiente. Mesmo assim, são fiéis. Esse perfil de eleitor, felizmente, está diminuindo, pressionado pelas mudanças que ocorrem na sociedade. A própria crise – corrupção, descrença, desfaçatez dos políticos, infidelidade de propósitos – está criando anticorpos que ajudam o eleitor a pensar a política de modo mais racional.
Outros grupos de eleitores percebem os candidatos pelo clima emotivo que os envolvem. A música de campanha, a proximidade do candidato com as causas mais imediatas da população, a identificação com o bairro, com a rua, funcionam como fatores de atração. A decisão emocional suplanta a vontade racional. Também esse tipo de eleitor está diminuindo. E tudo porque a doçura fingida dos candidatos está sendo percebida e denunciada. Espalha-se a convicção de que o eleitor não deve confiar em candidato que promete com muita facilidade. É um velhaco. Se o candidato prometeu e cumpriu, a coisa muda de figura.
Na programação de TV e rádio, as mentiras e promessas mirabolantes acabam gerando um processo de canibalização recíproca. É como história de pescador, cada uma mais mentirosa que a outra. E se tudo resvala pelo terreno da descrença, o que vai sobrar é uma mistura de impressão pessoal, simpatia/antipatia, proximidade/distância, fatores que acabam influenciando o processo de decisão. É cedo, ainda, para se dizer quem levará a melhor no campo da programação gratuita. Candidatos que dispõem de muito tempo, podem se dar ao luxo de variar nas formas de linguagem, e essa diversificação pode conferir boa visibilidade, melhor aceitação e maior recall às propostas. Quem tem pouco tempo, opta por um programa mais publicitário e menos jornalístico, um risco, na medida em que o artificialismo de candidatos está mais exposto às linguagens publicitárias.
Nos próximos dias, os programas entrarão num ciclo de queda, pois os eleitores tenderão a considerá-los chatos, repetitivos e desinteressantes. Mas, no terceiro estágio, que são os 15 dias finais, o clima ficará mais quente. O combate direto entre competidores será acirrado, as acusações e defesas tomarão conta dos programas, mesmo daqueles que apostavam na idéia de passar ao lado dos ataques e contra-ataques. O eleitor, mesmo que se queixe das baixarias, acabará envolvido por elas, encorpando-se aos grupos que tomarão decisões nos momentos decisivos da campanha.
O eleitor brasileiro muda de posição, sim. É cercado por circunstâncias e eventos de última hora. O uso de sapato alto é desaconselhável para candidatos que já se consideram vencedores. E é bom saber que, em caso de segundo turno, a campanha é outra. Novos contornos, novas motivações, novas decisões.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e consultor político
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