O eleitor e o marketing - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de junho de 1998
Gaudêncio Torquato 
A força da natureza é a maior do universo. Os homens até conseguem, com obras monumentais de engenharia e arquitetura, driblar as forças naturais, porque sua força é comparável à da natureza. Estão aí os diques, os túneis debaixo dos rios e dos mares, ícones da grandeza criativa do homem. Mas os furacões e terremotos que devastam espaços, não fazendo concessões aos mais avançados bastiões da tecnologia, provam que a natureza não pode ser enganada todo tempo. O povo, já dizia Lincoln, também não pode ser enganado em sua totalidade durante todo tempo. É por isso que o povo, mesmo o mais sofrido, aquele do qual se tiram as energias pelas doenças, pelas sequelas, mazelas e omissão dos governantes, desenvolve uma incomensurável força: a força para construir seus próprios caminhos.
A questão vem a propósito da luta política e das estratégias que os candidatos a pleitos majoritários e proporcionais engendram para escalar a montanha do poder. As táticas, os meios, as formas, os recursos, o marketing, enfim, das campanhas eleitorais conseguem enrolar o eleitor numa capa de mistificação tão densa que lhe turve a visão, tirando a capacidade de ajustar o raciocínio?
Mais exatamente: é o marketing que dá a vitória ao candidato? Essa é uma constante indagação de leitores e da imprensa. Vamos às respostas. Primeira: quem ganha uma campanha é o candidato; o marketing ajuda a potencializar qualidades e virtudes e a atenuar defeitos. Segunda: o marketing mal feito contribui para derrubar candidatos. Terceira: o eleitor sabe distinguir entre o certo e o errado, entre o adequado e o inconveniente, entre o simples e o exagerado.
Neste ponto, cabe arrematar: o eleitor é sábio e o candidato é quem ganha a campanha. A sabedoria do eleitor está na virtude da observação e no poder da análise. Não precisa ser um poço de conhecimentos, nem um acurado intérprete dos fenômenos sociais. O eleitor mais pacato tem condições de distinguir qualidades e vícios de seus semelhantes, a partir de um código de referências e do sistema de associação de idéias, que incluem companheiros, amigos, conversas, diálogos e comparações. Há pessoas que consideram o eleitor um ente imbecilizado, extensão da irracionalidade animalesca. E que não sabem votar. Pelé até chegou a dizer isso, um dia. Trata-se de um equívoco.
Esta é uma razão pela qual não se deve procurar exagerar as cargas informativas, emotivas, expressivas e argumentativas do marketing. Lembrem-se de Collor. Exagerou na dose. A tecnologia e o sofisma criam certos embaraços mentais na maquinaria psíquica de pessoas menos preparadas para entendê-las, mais sujeitas aos processos de manipulação. Mas o ser humano, quando confrontado com cargas informacionais que não absorve e não entende, desenvolve mecanismos de proteção. Refugia-se na desconfiança. Observe-se o olhar desconfiado e matreiro de quem se sente enrolado. A esmola, quando é muita, o cego desconfia.
O desconfiômetro, portanto, está presente nos processos cognitivos das pessoas, sejam quais forem suas habilitações e potenciais. Não se pode lutar contra a força do pensamento, a capacidade imaginativa de cidadãos que pensam e costumam agir em função de códigos que orientam o sistema de decisões.
Nos últimos 60 anos, desde a 2ª Guerra Mundial, registraram-se ganhos formidáveis no campo das idéias e dos sistemas de significação. A era da mistificação nazista ficou para trás. O universo globalizado exerce um auto-controle. Se alguém erra, já não esconde o erro tão facilmente. A subordinação pela opressão dos esquemas e estratagemas de comunicação, controlados por ditadores ou por poderosos grupos e feudos, já não tem a mesma força do passado. Os cidadãos despertaram. Como a natureza, têm força para quebrar os grilhões da vontade de seus semelhantes e fazer valer sua própria vontade.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)


