O eleitor e as eleições
A formação político-partidária brasileira nasceu, se desenvolveu e foi cristalizada a partir dos Estados. Até 1945, os partidos tinham um caráter regionalista e atuavam dentro das esferas provinciais. Após esta data, a chamada lei Agamenon Magalhães os transformou em legendas nacionais. Mas como tudo aquilo que nasce por decreto como é praxe neste País tende a se tornar de direito, porém não necessariamente de fato, os partidos políticos ainda hoje não passam de grandes feudos a serviço e interesses dos caciques regionais. Até mesmo as decisões nacionais passam antes pelos Estados. Basta atentar às negociações políticas na escolha dos candidatos a vice-presidentes.
As razões são históricas e traz em sua gênese a figura do poder centralizado nas mãos dos chamados coronéis, que não mediam esforços para manter o controle político em troca de benesses oficiais. Daí que o caminho lógico e natural sempre foi os partidos legalmente organizados. O que surpreende é que estes fatos remontam dos primórdios do século 19, mesmo assim ainda permanecem práticos e usuais.
Para a sociedade, as eleições legislativas estaduais e municipais têm pouco ou quase nenhuma importância. Ao cidadão interessa escolher o prefeito, o governador, os legisladores federais (deputados e senadores) e o presidente da República. Os deputados estaduais e vereadores apenas cumprem formalidades legais. O que os eleitores ainda não perceberam é que estes, pelo simples fato de estarem próximos de suas realidades, dos problemas do dia-a-dia, adquirem um caráter tão ou mais importante que os demais. A vida de fato acontece nas ruas, nos clubes, nas esquinas, nas associações de bairro, enfim, desta somatória de fatores é que surge a figura ente da cidade e, posteriormente, do Estado. O cotidiano das pessoas é regulado muito mais por tudo que ali se dá e menos pelas decisões macro do Palácio do Planalto ou do Congresso Nacional.
Além de que, o poder de coerção de uma sociedade organizada localmente é infinitamente superior àquela dispersa pelos quatro cantos do País. Há quem diga que o projeto da construção de Brasília previa, entre outras façanhas, manter o Poder afastado das grandes massas populares, num tempo em que os meios de comunicação não eram tão acessíveis à população nem a imprensa exercia um papel tão grande junto ao povo. A partir da Constituição de 1988, os Estados e municípios assumiram funções de importância fundamental para vida de qualquer cidadão. Basta citar duas: a segurança, um tema por demais presente na vida de qualquer pessoa, é de responsabilidade exclusiva dos governos estaduais; a saúde pública, a partir da implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), foi municipalizada e a competência por sua operacionalização é das prefeituras. Nestes casos, a obrigatoriedade pela fiscalização destas tarefas compete aos vereadores e deputados estaduais.
Daí a conscientização que os eleitores devem ter num ano eleitoral como este, quando deverão eleger ou reeleger os deputados estaduais que irão compor as Assembléias Legislativas de todos os Estados. Sem dúvida que a política é feita da somatória de tarefas, funções e responsabilidades de toda a classe política, independente de instância ou fórum de atuação. Mas os exemplos fazem ver que a partir de atitudes supostamente isoladas de cada brasileiro, eleitor ou não, mas simplesmente cidadão, é possível encaminhar o País num processo de transformação não apenas social e político, mas acima de tudo, ético.
A história tem mostrado que os grandes avanços da humanidade, qualquer que seja seu caráter, partem da pressão, da coação democrática e da livre manifestação de cada um de nós. Como diria Winston Churchil, o ex-premiê inglês, de todos os regimes de governo, a democracia ainda é o menos imperfeito. Basta que saibamos dela fazer uso adequado.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba





