O eleitor de força moral
O eleitor de força moral
Gaudêncio Torquato
A política é um processo que envolve atores principais e coadjuvantes. A moralização política não depende, portanto, apenas do aperfeiçoamento dos padrões e comportamentos dos atores principais, que são os políticos. Exige também a melhoria dos padrões dos coadjuvantes, que são os eleitores. Uma constatação pode ser feita: o eleitor brasileiro, a cada eleição, dá mostras de aperfeiçoamento em seus critérios e valores. Torna-se mais racional e menos emotivo, mais preocupado na escolha de seus candidatos e menos comprometido com a política de clientela.
Assim como há candidatos com força moral, há milhares de brasileiros de padrão moral elevado. O que os distingue? Primeiramente, a autonomia de decisão. Trata-se de um cidadão que se inspira em um conceito de autogestão técnica, pelo qual determina seus fins e propósitos e seleciona os meios, as ferramentas e as pessoas para alcançá-los. Esse eleitor moral não se contamina com as benesses, privilégios e pequenos favores concedidos pela velha política.
O eleitor de perfil moral, ademais, vota em função dos compromissos assumidos por um candidato. Não se encanta com a cosmética de um candidato ou com o palavrório. Sabe distinguir entre promessas mirabolantes e projetos factíveis. Está atento às contradições do candidato, não se deixa envolver pelas firulas da televisão ou pelos efeitos estéticos da propaganda. Quer dizer, sua maquinaria psíquica não se deixa abater pela pressão da propaganda. É claro que ele não precisa se afastar da campanha. Ao contrário, se escolheu um candidato moral, tem todo o direito de lutar por ele, cooptar eleitores, argumentar, fazer pressão.
O eleitor moral tem o direito e até o dever de investir tempo e energias para escolher candidatos de força moral. E o que esse tipo de eleitor mais racional pode exigir de seus candidatos? Compromissos. Compromissos com o seu bairro, a sua região, o seu município. Políticas sociais que sejam adequadas e programas que possam ser implantados. Valores que mereçam o reconhecimento, como a transparência na administração, a coragem de não ser populista, a determinação de inovar, a força para não se deixar abater pela pressão de grupos interesseiros. Um eleitor de força moral não pode silenciar diante das injustiças, da malandragem, da corrupção, da inércia dos governantes, da inação administrativa.
Seu dever é denunciar as coisas erradas pelos meios que tem à disposição. Silenciar diante do erro e do ilícito é renunciar à sua condição de cidadão. Haverá retaliações por parte dos denunciados? Quem não deve, diz o ditado, não teme. E somente aqueles que se arriscam a ir longe, escreveu T.S. Elliot, saberão até onde podem chegar. O Brasil está avançando no caminho da modernidade institucional e política. Mas poderia correr um pouco mais. Para tanto, seria necessário que seus cidadãos de caráter ilibado dessem passos mais largos, abrissem frentes de indignação e inaugurassem espaços de dignidade por todos os lados.
Saint Just, um dos jacobinos da Revolução Francesa, executado após a queda de Robespierre, expressou uma desilusão ao dizer que todas as artes produziram maravilhas, exceto a arte de governar, que só produziu monstros. A mesma amargura pegou o coração do segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams, que nos legou a seguinte leitura: Todas as ciências progrediram, menos a de governar, que não avançou: hoje é praticada apenas um pouco melhor do que há 4 mil anos. A opinião até pode ser exagerada. Mas aponta uma coisa: a contaminação dos governantes pelo vírus do poder. Contaminação que poderia ser menos forte, caso os eleitores de força moral injetassem nas veias da administração seu sangue oxigenado pela ética, pelos bons costumes e pela grandeza de espírito.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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