Concluído o segundo turno das eleições municipais de 2000 muitas análises foram feitas para explicar principalmente o fenômeno mais significativo que ocorreu neste pleito: o avanço das oposições no qual se destaca o crescimento significativo do Partido dos Trabalhadores. Mais que o fator numérico, (18,4% das prefeituras brasileiras estarão em mãos petistas) há que se considerar o avanço qualitativo do PT, pois esse partido venceu em seis capitais, entre as quais a mais importante do País, São Paulo.
As causas de tais vitórias sem dúvida alguma brotaram principalmente daquilo que chamo de cansaço cívico, derivado do descaso de muitos governantes para com seus governados e, principalmente, dos reiterados casos de corrupção que culminaram em diversas cassações de prefeitos em todo Brasil. Tais frustrações despertaram no eleitor o desejo de uma faxina ética nos arraiais da política e ao encontro desta justa aspiração acorreu o discurso dos candidatos do PT, que eliminando a retórica radical, abençoados pela Igreja Católica ao som dos sinos dos campanários e sustentados por eleitores coletivos representados por fortes e bem organizadas instituições, assumem agora a responsabilidade de preparar o caminho para a escalada do poder a níveis mais altos.
Observe-se ainda que nunca o PT ganhou tanto e nem assumiu com tanta evidência a sua porção redentora, tendo surfado com relativa facilidade na onda de moralização que varreu o País. E justamente este aspecto redentor a partir de circunstâncias propícias é que colaborou bastante para as vitórias obtidas.
Além disso, o PT ganhou porque é bem organizado em termos da disciplina da militância, faz campanha o tempo todo (nas eleições e fora delas) e, sobretudo porque possui um aspecto que marca sua diferença dos outros partidos: a mística, que sustenta o combate e preserva a fé em determinados ideais.
Deste modo, mesmo com suas cisões internas, o PT se transforma em bloco unificado na hora da campanha e age como um exército em combate. Um exército cujas estratégias de luta se tornaram mais aceitáveis através de um processo desenvolvido durante 20 anos, o qual em parte transformou o Partido dos Trabalhadores em um partido igual aos outros no tocante as alianças indiscriminadas, o despojamento do conteúdo de classe e a abrangência de um eleitorado compósito que inclui todas as camadas sociais. Justamente essa evolução permitiu sua aceitação por parte de segmentos da sociedade.
Por outro lado, muito da maneira de ser petista ainda assusta eleitores por conta de algumas posturas que remanescem em certas alas do partido, e que possuem caráter radical e conservador como o apoio ao MST ou o calote da dívida interna. Também certos modos de pensar de dirigentes do PT podem causar transtornos na economia e inviabilizar o crescimento brasileiro. Entre outras visões de mundo do PT se destacam a defesa intransigente do pai Estado, que deve zelar por seus filhos que para tudo dele dependem; o nacionalismo exacerbado, que se abate, por exemplo, sobre as privatizações necessárias; o xenofobismo contraditório, que leva petistas a pedir ajuda aos Estados Unidos para depois apontarem os yankees como os causadores de todas as nossas desgraças.
De tudo isso avulta Juno, o deus bifronte, algo que recorda o PMDB que conseguiu o fenômeno de ser simultaneamente situação e oposição. E ao que tudo indica, para essa dualidade se encaminharão as prefeituras sob o comando petista a fim de sobreviverem ao caos reinante em que administrações de outros partidos precipitaram vários municípios.
Das vitórias obtidas pelo PT infere-se também outro fator importantíssimo que reflete o atual cenário e diz respeito às consequências da moderna globalização (já existiram outras no passado) onde o mundo vai se formatando em blocos. É que se existem blocos econômicos, outros conglomerados se formam inclusive na política. Neste quadro não apenas se observa o aumento das coligações partidárias, como o fato de que existe um eleitor coletivo que contribui significativamente para vitórias eleitorais.
O PT contou nestas eleições com eleitores coletivos que lhe propiciaram o volume dos votos individuais. Uma versão modernizada e muito mais elaborada e requintada do antigo voto de cabresto, que agora se impõe não a partir do constrangimento ou da necessidade de proteção, mas da persuasão. Entre os eleitores coletivos do PT se sobressaem setores como os da Igreja Católica, a CUT, lideranças do MST, membros da OAB, da ABI, outros grupos de interesse ou de pressão, os tradicionais partidos de oposição que se perfilam ao lado do PT e a novidade do momento: os partidos da situação que em nível municipal hipotecaram solidariedade ao Partido dos Trabalhadores em nome da ética.
Aos solidários do PSDB e do PMDB que contrariaram as diretrizes dos seus respectivos comandos nacionais, seria conveniente recordar as palavras de Vilfredo Pareto relativas à circulação das elites do poder: ‘‘Todo o escol que não dispõe a travar batalha para defender as suas posições está em plena decadência; só lhe resta deixar o lugar a outra elite que tenha as qualidades viris que lhe faltam.’’
De todo o modo, diante das expectativas de eleitores estressados por cansaço cívico, o PT se verá diante da responsabilidade de governar com competência e de manter a bandeira ética com a qual se cingiu. Somente com isso poderá satisfazer o eleitorado de resultados que surgiu no Brasil, e que é muito mais crítico e perceptivo do que aquele de alguns anos atrás. Será também necessário mais humildade e menos ideologia, pois no poder governa-se para todos e com todos, e não apenas através de um partido que se comporte como uma República dos Companheiros.
No mais, como disse Joaquim Nabuco: ‘‘A fatalidade das revoluções é que sem os exaltados não é possível fazê-las e com eles é impossível governar.’’ Esperemos que o PT tenha aprendido esta lição.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária E-mail [email protected]